A luz de Divaldo Franco nas telas

A luz de Divaldo Franco nas telas

Rodrigo Fonseca

18 de setembro de 2019 | 05h04


RODRIGO FONSECA
Prolífico na telona e na TV (onde brilhou no papel do Dr. Décio, de “Sob Pressão”), Bruno Garcia, o Jeffrey Hunter de Olinda, empresta agora o seu carisma e suas múltiplas ferramentas cênicas a uma figura real icônica da fé brasileira, que anda arrastando multidões ao cinema: é ele o protagonista de “Divaldo – O Mensageiro da Paz”, já em cartaz. Visto por 105 mil pagantes em seu fim de semana de estreia, de 12 a 15 deste mês, o longa-metragem de Clovis Mello tira de seu astro uma aula de discrição na forma de edificar a trilha de conflitos de um homem, o médium baiano Divaldo Franco, que aprendeu a ouvir o Além. Há cerca de sete décadas, Franco se dedica a divulgar pelo mundo uma homilia de amor, esperança e fraternidade. Já publicou cerca de 270 livros (com mais de 10 milhões de exemplares vendidos), alguns psicografados em idiomas como alemão e espanhol. Aos 92 anos, ele percorre o mundo como palestrante, já tendo visitado mais de 60 países nos cinco continentes. Garcia desenha essa saga com um misto de retidão e leveza. Essa é a marca dele, como ator-autor.

Muito se fala da atriz Ingrid Guimarães, quando a franquia milionária “De pernas pro ar” vem à cabeça – e com razão – mas pouco se reconhece a importância de Garcia para essa franquia vencedora, que encarou, com bom humor e picardia, a concorrência estrangeira. Agora, ele empenha seu talento em prol do diálogo do filme de Mello com as plateias, tendo um elenco em estado de graça (em especial, Marcos Veras, a seu lado). A chegada desta doce investigação sobre a caridade ao circuito coincide com o êxito de “Kardec” na Netflix.

O diretor Clovis Mello

Há uma narrativa de biopic em “Divaldo – O Mensageiro da Paz”, com a trama desenhando sua travessia pelo Tempo, neste plano astral. Nascido em Feira de Santana, no interior da Bahia, Divaldo convive com a mediunidade desde os 4 anos. Divaldo fundou, em 1952, junto com seu amigo Nilson de Souza Pereira, a obra social Mansão do Caminho. Instalada numa área de 78 mil metros quadrados no bairro de Pau de Lima, em Salvador (BA), a entidade atende três mil pessoas por dia. Divaldo Franco acolheu e educou mais de 600 filhos – órfãos ou em situação de abandono – hoje emancipados, e tem cerca de 200 netos e bisnetos. A trajetória inspiradora de Divaldo é levada às telas pelo diretor Clovis Mello, que também assina o roteiro do longa. Três atores vivem o médium em diferentes momentos da vida: João Bravo (infância), Ghilherme Lobo (dos 17 aos 22 anos) e Bruno Garcia (fase adulta). Laila Garin interpreta Dona Ana, mãe do protagonista. “Divaldo – O Mensageiro da Paz” conta ainda com (uma inspirada) Regiane Alves no papel de Joanna de Ângelis, a guia espiritual do personagem principal, e Marcos Veras como o Espírito Obsessor. Realizador de “Ninguém Ama Ninguém por Mais de Dois Anos” (2015), Mello fala ao P de Pop sobre sua busca estética nas raias da metafísica.
Qual é o desenho heroico de Divaldo no filme, em seu esforço de analisar o humanismo de seus gestos?
CLOVIS MELLO:
Desde o início, a nossa ideia nunca foi apresentar o Divaldo como um mito, um santo, ou algo que o valha. Não existe heroísmo aqui… o que há é um ser humano superando o seu ego para dar voz a uma mensagem espiritual e jogar luz sobre corpos e almas necessitadas.
Em que ponto um ator de múltiplos recursos como Bruno Garcia, com vasta travessia pelo humor, mais auxilia no seu empenho para poder esquadrinhar a alma de Divaldo?
CLOVIS MELLO:
O Bruno, como você poderá perceber no filme, em que pese toda a sua experiência e talento, atua como mais um elo nessa corrente de harmonia, que foi a tônica da realização desse filme. Ele o faz com precisão e generosidade, não se sobrepõe a ninguém, porque, como disse antes, o protagonismo aqui é da mensagem e não do mensageiro. Este projeto foi um excelente exercício de domesticação dos nossos egos limitados e imperfeitos. Todos ganhamos juntos e saÍmos mais fortes e ao mesmo tempo mais simples de tudo isso.
O que pode haver de “evangelização” numa narrativa com tons biográficos como está, num momento de “Nada a perder 2” nas telas? Como fugir da pecha de ser “publicidade espírita”?
CLOVIS MELLO:
Só vendo o filme para conferir, mas este longa-metragem não se propõe a catequisar ninguém, apenas apresenta aspectos da Filosofia Espírita porque o nosso biografado é um líder do Espiritismo. Mas não se pretende mudar a religião de ninguém, apenas abrir espaço para que entendamos que o nosso maior templo é a nossa mente, nossos pensamentos e nossos sentimentos. Sem o controle ferrenho desses componentes de nada adianta frequentar os templos para rituais, missas, passes, ou cultos. O segredo está nas nossas atitudes diárias. Sem elas as nossas orações perdem os seus efeitos. Nesse sentido, o filme é bem menos espírita e bem mais psicológico.
Qual é o Brasil, crente ou religioso, que está retratado na saga de Divaldo?
CLOVIS MELO:
O Brasil retratado nas telas é o Brasil do sincretismo, do ecumenismo, o Brasil que quer derrubar os muros da intolerância, do preconceito e do egoísmo. Este é um filme que ilumina um caminho viável e possível para aqueles que, hoje, já dormem sob efeito de tranquilizantes e acordam sob efeitos de bombas energéticas. Este filme é um farol para aqueles que se deprimem com facilidade, para aqueles que caminham silenciosamente para o suicídio, para aqueles que não conseguem mais encontrar satisfação nos pequenos e fugidios prazeres desse mundo de aparências. Este filme é para aqueles que estão a olhar para o horizonte em busca de uma resposta que não virá do céu, pois esta resposta não está nas nuvens, está dentro de cada um de nós. E aí que Deus mora.

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