A luva sangrenta de Fatih Akin

A luva sangrenta de Fatih Akin

Rodrigo Fonseca

16 de julho de 2019 | 01h16

Rodrigo Fonseca
Ganhador do Urso de Ouro em 2004 por “Contra a parede” (“Gegen die Wand”), um filme de amor ligado a valores culturais de Istambul, o cineasta alemão de origem turca Fatih Akin, de 45 anos, costuma filosofar sobre a distância moral que atomiza a tolerância em suas mais variadas formas: “O medo é a fonte de toda a barbárie. É ele que nos deixa em estado de sítio, em vigília. A pior guerra do mundo contemporâneo não é aquela em que helicópteros atiram bombas em inocentes, explodindo corpos; é, sim, a guerra da paranoia, da desconfiança, do descrédito no próximo”, disse o diretor em uma de suas várias passagens por Cannes. Festivais internacionais adoram ele, em especial por sua habilidade de rachar plateias. Foi o que aconteceu na Alemanha: lá,  ele espatifou opiniões na 69ª edição do Festival de Berlim, em fevereiro, com um febril exercício de exumação do horror que estreia nesta quinta-feira no Brasil: o thriller “O Bar Luva Dourada”.

“O que me leva a fazer aquilo que vocês chamam de ‘filme de monstro’ é a minha memória do Expressionismo Alemão, com ‘Nosferatu’, e a percepção de que há um cinema real, de horror, de um expressionismo cotidiano, sendo feito nas ruas de todo o mundo neste momento em que o maior obstáculo da paz é a intolerância. E, politicamente, o terror acabou sendo institucionalizado como desculpa para conflitos que poderiam ser resolvidos na diplomacia, na união”, disse Akin ao P de Pop.

Seu mais recente trabalho é de uma maturidade técnica indiscutível ao reviver um dos maiores pesadelos do povo de Hamburgo: o serial killer Fritz Honka (1935-1998). Com feições assustadores, de dentes pobres e olhos tortos, ele esquartejou quatro mulheres, entre 1970 e 75, mantendo seus corpos em decomposição guardados num cômodo do apartamento onde morava. O mau cheiro dos cadáveres ele imputava aos vizinhos gregos do apartamento de baixo, num exercício de xenofobia. A versão de Akin dispensa toda a linha existencial que caracteriza a obra do realizador – consagrado recentemente com o Globo de Ouro por “Em pedaços”, de 2017 – e aposta na cartilha do suspense. Na Berlinale, nada foi tão controverso ou tão assombroso. E seu astro, Jonas Dassler, colecionou elogios pela composição de Honka.

“Eu levava pelo menos 30 minutos por dia para me livrar da maquiagem que descaracterizava meu rosto”, contou Dassler à Berlinale, onde encarou uma horda furiosa pela crueza de suas imagens, que serão debatidas nesta terça-feira, em São Paulo, no Reserva Cultural, às 21h, pela criminóloga Ilana Casoy, o escritor Santiago Nazarian e a jornalista e crítica Flávia Guerra.

“Mas não é de próteses ou de cremes que vinha aquele monstro e sim da maneira como Jonas buscou o terror de si, de seu olhar sobre o mundo”, disse Akin. “Vivemos tempos onde o crime sexual ganhou visibilidade. Filmar um crime desse tipo exige uma postura ética na qual toda a brutalidade contra a mulher seja escancarada como algo a ser combatido. Quisera eu viver num mundo com menos psicopatas”.

Regado a clássicos do cancioneiro brega germânico, “The Golden Glove” (ou “Der goldene Handschuh”) tomou seu título emprestado do bar onde Honka caçava suas vítimas. O filme estreou em circuito alemão no dia 21 de fevereiro, com potência para se tornar um campeão local de bilheteria, o que acabou prejudicado pelo azedume que a brutalidade em cena gerou.

p.s.: Quarta-feira começa a 27ª edição do Anima Mundi no Rio de Janeiro: já que o assunto aqui é sangue derramado, confira o brilhante thriller “Contra-filé”, de Pedro Iuá, no evento.

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