A Lisboa de Luiz Ruffato ganha os cinemas com delicadeza, com certeza

A Lisboa de Luiz Ruffato ganha os cinemas com delicadeza, com certeza

Rodrigo Fonseca

15 de junho de 2016 | 11h10

Num procedimento cirúrgico de gestos mínimos, Paulo Azevedo emociona e gera reflexão como o protagonista de

Num procedimento cirúrgico de gestos mínimos, Paulo Azevedo emociona e gera reflexão como o protagonista de “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, uma das maiores surpresas do circuito nacional em 2016

Existe um procedimento de interpretação (no mínimo) original no drama Estive em Lisboa e Lembrei de Você, que aterrissa agora em circuito nacional, apoiado em uma atuação desdramatizada (com ecos de Artaud) do ator Paulo Azevedo. Em passeios pela capital portuguesa, na pele de um mineiro de poucos recursos à caça de estabilidade (e de euros) em solo luso, Azevedo nos leva por caminhos investigativos novos no ofício de atuar, com gestos controlados, poucas palavras, olhares sempre contemplativos (de si mesmo e do ambiente). É algo que sacode a pasmaceira nossa de muitos filmes. Algo que só se faz possível por ele estar também em uma instância de investigação entre o Real e o Ficcional.

 

Ponte estética entre Brasil e Portugal, sob a ótica dos fluxos migratórios, Estive em Lisboa e Lembrei de Você pode popularizar, no âmbito do audiovisual, a obra literária de Luiz Ruffato, um dos maiores criadores da língua portuguesa no espaço do romance revelado nas últimas duas décadas. Foi nas páginas do romance homônimo de Ruffato que o cineasta português (radicado no Rio) José Barahona pinçou um enredo que é uma espécie de périplo transnacional em busca da felicidade.

 

“O mito de Lisboa como lugar onde se podia vencer na vida me parecia exagerado, mas ele existia na mente de muitas pessoas. Tentei retratar o espírito de êxodo que une Portugal e Brasil uma vez que o filme acaba por falar de várias vagas de migrações que existiram entre os dois países ao longo dos tempos”, diz Barahona, explicando a gênese de seu filme, centrado na jornada de Serginho, brasileiro que troca sua rotina pacata e sem perspectivas em Minas Gerais, para tentar a sorte na Europa.

 

Com o documentário O Manuscrito Perdido, de 2010, Barahona se tornou conhecido em solo brasileiro, ganhando o prestígio suficiente para se tornar o primeiro no cinema do Brasil a filmar um dos escritores mais aclamados do país dos anos 2000 para cá. Foi com o livro Eles Eram Muito Cavalos que Ruffato passou a ser tratado como um pilar de renovação da narrativa literária da língua portuguesa. E ele confirmou a aposta que fizeram com os romances da série Inferno Provisório, que também acabam de ser filmados, na forma do longa Redemoinho, de José Luiz Villamarim (diretor de novelas como Avenida Brasil), esperado para o segundo semestre. Mas Estive em Lisboa e Lembrei de Você veio antes.

 

“O livro do Ruffato era tratado como um ‘falso depoimento’ dado por Sérgio de Souza Sampaio a Luiz Ruffato em Lisboa, no restaurante Solar dos Galegos e eu já vinha trabalhando meus documentários com uma forte componente ficcional”, explica Barahona. “Daí surgiu a idéia de que o filme seria um longo monólogo de Sérgio para o espectador. O olhar de Sérgio diretamente para a lente, e não para o diretor fora do quadro, como no documentário, assumindo assim a artificialidade do cinema. Querendo confundir e fundir ainda mais as técnicas que experimentei no documentário e na ficção, eu iria encontrar um ator para encarnar o personagem principal, e buscar não atores ou atores amadores com histórias de vida semelhantes às descritas por Ruffato no livro. Foi o que aconteceu. Para cada personagem, eu busquei e adaptei a personagem à pessoa. Nalguns casos, como no caso da prostituta Sheila, não encontrei nenhuma prostituta disposta a fazer o filme, mas usei a história de vida de uma prostituta brasileira, que eu tinha entrevistado na preparação do filme, em vez da descrita por Ruffato no livro. Eu tentava fazer o caminho inverso do de Ruffato, que provavelmente encontrou essas pessoas e as recriou no seu livro. Eu queria que no filme não se distinguisse documentário e ficção, como acontece um pouco no livro. Não existe nenhuma realidade no cinema a não ser a realidade de um filme que é visto. Tudo é criação”.

Barahona fala com orgulho de sua trupe no projeto: “Paulo Azevedo me traz uma inteligência rara, em sua parceria”.

 

Mineiro, este grande ator já integrou cerca de 15 espetáculos com grupos e diretores reconhecidos, como Hector Babenco, Cibele Forjaz e Yarade Novaes. Realizou premiados espetáculos que circularam festivais nacionais e internacionais. Fundou e é ex-integrante do Grupo Espanca. No cinema, é protagonista do longa Paixão & Virtude, de Ricardo Miranda e de oito curtas metragens. O diretor de fotografia Daniel Neves, que fez o documentário José e Pilar (2010), é português, e trabalhou com Barahona em curtas-metragens de ficção e documentários.

 

Segundo o diretor, as filmagens decorreram na cidade de Cataguases, em Minas Gerais, que é a terra de Ruffato, e em Lisboa. “Foram quase dois filmes diferentes em termos de produção e equipe, mas mantive, por uma questão de coerência estética o mesmo diretor de fotografia e o mesmo diretor de som, o primeiro português e o segundo brasileiro”, diz o diretor.

Barahona enxerga no longa-metragem uma relação especular com sua própria vida. “Serginho é um espelho de mim próprio. Em muitas coisas. Meus amigos dizem que ele se parece tanto comigo que até a forma com segura o cigarro é igual a mim. Claro, Paulo Azevedo não fuma, e essa foi uma das muitas coisas que trabalhamos juntos, uma vez que o personagem fuma e eu também, embora hoje esteja a tentar parar… Mas, à parte desse pequeno detalhe, há mais de 10 anos que eu viajo e trabalho no Brasil de forma intermitente. E, há mais de dois anos, eu me vi sem perspectiva alguma de poder filmar e resolvi viver no Rio de Janeiro. Era o auge da crise financeira e social em Portugal. Era um momento em que a produção de cinema foi completamente abandonada pelos apoios do governo, que é a única fonte de financiamento possível em Portugal. No Rio, vivi sonhando, como todos os migrantes fazem, com uma vida melhor”, diz o cineasta.

No Brasil, Barahona vislumbrou muitas oportunidades. “Havia principalmente um mercado audiovisual bastante vibrante e ativo, coisa que não existe em Portugal mesmo nos tempos pré-crise. Mas, tal como Serginho, aquilo que eu encontrei foi diferente daquilo com que sonhei. Embora este filme tenha sido viabilizado por patrocinadores brasileiros, isso não foi imediato e o custo de vida no Rio de Janeiro e a presente conjuntura política e econômica no Brasil parecem estar a inverter novamente o sentido das migrações. O dia a dia na cidade é duro para quem vem de um lugar pequeno como Lisboa que só agora, na distância, percebo que é bastante tranqüilo e pacífico”, conta o cineasta.

13 Estive em Lisboa e Lembrei de Você

Revirando suas memórias, Barahona se lembra de que, a partir dos anos 1990, em Lisboa, foi grande o fluxo de uma grande migração brasileira para Portugal. “O garçom do café onde vou todos os dias, a moça que trabalhava em minha casa uma vez por semana fazendo faxina e o cozinheiro do meu restaurante favorito eram brasileiros. Serginho é uma dessas pessoas. Depois, com a crise, todos voltaram para o Brasil. Com eles, muitos amigos e colegas portugueses vieram e estão ainda aqui no Rio de Janeiro ou espalhados pelo Brasil. Diferente da emigração portuguesa de meados do Século 20, quando muitas pessoas de zonas rurais e sem muita instrução vieram para o Brasil, agora, e até há bem pouco tempo, vieram médicos, engenheiros, arquitetos e, claro, cineastas como eu. É uma realidade diferente pois somos uma classe média que teve oportunidade de estudar e que procura um outro patamar de vida. Mas na essência, todos procuramos uma vida melhor”, avalia o diretor.

Em sua rotina de finalização de Estive em Lisboa e Lembrei de Você, Barahona já começa a farejar um fluxo migratório às avessas. “Algumas das pessoas com que me cruzo na Zona Sul do Rio de Janeiro, demonstram hoje o seu desejo de morar em Portugal e se mostram supressos por eu ter escolhido o Rio para morar”, diz. “Posso entender a busca por um outro estilo de vida mais tranqüilo, mas embora os números de desemprego no meu país, maquiados pelo governo quando agora se aproxima uma eleição, estejam a decair e a economia esteja em aparente retomada, Portugal ainda vive uma grave crise financeira e social. É um momento de oportunidade para quem vem de fora com capital para investir ou viver com uma boa aposentadoria, pois tudo está à venda e tudo é mais barato. Mas não uma saída para quem busca um emprego no mercado de trabalho. Estive em Lisboa e lembrei de você foi uma forma de tentar entender todos estes movimentos e me perceber a mim próprio entre eles. Não consigo conceber um filme sem estar intimamente ligado a mim. Essa relação de proximidade é que faz com que o filme seja visceral, é onde eu consigo buscar toda a energia e perseverança necessária para fazer um filme. Ele tem de ser vital para mim. Por isso este filme é também, de certa forma, um espelho de mim próprio”.

 

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