Imperdível, a HQ ‘Mágico Vento’ volta às bancas

Imperdível, a HQ ‘Mágico Vento’ volta às bancas

Rodrigo Fonseca

26 de março de 2021 | 12h30

Rodrigo Fonseca
Sob constante patrulha da correção política, o faroeste sobrevive no audiovisual do empenho de cineastas autorais, como Tarantino (com “Django livre” e “Os oito odiados”) e os irmãos Joel e Ethan Coen (“A balada de Buster Scruggs”), além de sazonais experiências australianas. Mas nos quadrinhos europeus, o gênero, importado dos grandes clássicos de John Ford e Howard Hawks, continua sendo um dos mais rentáveis veios de dramaturgia, graças a heróis como MÁGICO VENTO, hoje de volta às bancas brasileiras numa caprichada revista homônima, subtitulada “O RETORNO”, lançada aqui com todo capricho gráfico pela Mythos Editora. Júlio Schneider assina a tradução, numa esgrima primorosa com a língua portuguesa. Criado na Itália, em junho de 1997, para a Sergio Bonelli Editore, a maior indústria de fumetti (HQs) de seu país e uma das maiores do mundo, o galante pistoleiro de trajes e vocabulário indígenas virou um ícone internacional do intercâmbio cultural e da defesa da Natureza. Seu nome de berço era Ned Ellis: usava farda, matava em nome do Exército dos EUA e mal tinha tempo de contemplar a beleza das pradarias que sujava de sangue. Foi assim até sofrer um acidente ferroviário, do qual foi salvo por um sábio do povo sioux. Vitaminado por poderes ligados à sua conexão com os povos originários, Ellis deu lugar aos ditames do Capital e aprendeu a escutar as matas, os rios e as visões que adquiriu em um poder de clarividência, além de ter ampliado sua rapidez no gatilho e na luta com facões.

Especialista nas reflexões sociais e política de Jean-Jacques Rousseau e sua metáfora do Bom Selvagem (a pureza que transcende as castrações do processo civilizatório), Gianfranco Manfredi, escritor responsável pela criação desta mistura de Zorro com Tonto, concebeu este vigilante do Oeste como sendo um guardião meio bastardo das tradições indígenas. É o que se vê na tensa aventura narrada em HQs como “O Fogo e o Vento”, já à venda. Com traço de Darko Perović, a trama de Manfredi põe Mágico Vento no rastro de Gerônimo (1829-1909), um guerreiro indígena que lutou para defender sua população, os Apaches, dos abusos do governo americano. Na história a seguir, “O Confronto do Século”, já a caminho, o pistoleiro vai ser testemunha de um dos mais sangrentos episódios ocorridos a Oeste do Tio Sam: o tiroteio em O. K. Corrall, em Tombstone, no Arizona, em 26 de outubro de 1881, envolvendo o xerife Wyatt Earp (1848-1929). Esse episódio será revivido nos gibis com chumbo quente mas com pitadas de humor na figura do parceiro habitual do herói, o jornalista alcoólatra Willy Richards, um sósia de Edgar Allan Poe (1809-1849), autor de “O corvo”.
Falando de Bonelli e da Mythos, corre atrás de “TEX GIGANTE – A VINGANÇA DE DOC HOLLIDAY”, de Laura Zuccheri e Mauro Boselli. Nessa HQ, o ranger mais temido do Oeste nos fumetti cruza armas com uma lenda da América selvagem, o dentista e pistoleiro John Henry “Doc” Holliday (1851-1887), para descobrir a verdade sobre uma série de crimes.

p.s.: A temporada do solo “Ana C.” termina neste fim de semana: são mais quatro sessões, no sábado e no domingo, às 19h e 21h. Misturando as linguagens do teatro e do cinema, a peça expõe os sentimentos que atravessaram a atriz Laura Nielsen durante a leitura da poesia de Ana Cristina Cesar. Haverá debate no sábado, após a sessão das 21h, com Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa, doutor em teoria literária. Os links para as sessões gratuitas ficam disponíveis 30 minutos antes nas redes sociais do projeto.
p.s.2: Nesta “Sessão da Tarde”, às 15h, tem “Arthur – O Milionário Irresistível” (“Arthur”, 2011), de Jason Winer, versão super pop do longa que tornou o inglês Dudley Moore (1935-2002) uma lenda do humor nos anos 1980. Russell Brand é o ricaço que suspira um querer grandão por uma moça toda engajada em causas humanistas, mas pobre de marré de si (Greta Gerwig). Helen Mirren vive a babá do endinheirado trapalhão, dublado aqui por Alexandre Moreno.
p.s.3: Com direção de Rafaela Amado, o espetáculo “O Jogo”, premiado texto da autora venezuelana Mariela Romero, teve sua temporada virtual prorrogada até este domingo, 28/03. Em cena, estão as atrizes Geovana Metzger e Milah Coutinho, numa trama que expõe questões como desigualdade, opressão feminina e relações abusivas. Nesta sexta, haverá bate-papo com a psicóloga Rosangela Casal. Os ingressos estão disponíveis para compra pelo Sympla (www.sympla.com.br/espetaculoojogoonline) e, no domingo, haverá uma sessão gratuita com divulgação do link nas redes sociais da peça.

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