A hora e a vez… de um espetáculo de teledramaturgia

A hora e a vez… de um espetáculo de teledramaturgia

Rodrigo Fonseca

23 de março de 2016 | 23h11

Ernesto Rosa cumpre sua sina

Ernesto Rosa cumpre sua sina em “Velho Chico”

Vísceras de peixe saltam sob o fio de um facão, a empestear o ar das margens do São Francisco, enquanto uma multidão testemunha a crônica de uma morte anunciada, em paralelo a um casamento de um coronel com uma caboclinha em terras de algodão, na toada de uma canção há muito tempo calada nas vitrolas: Réquiem para Matraga. Foi assim o capítulo de terça-feira de Velho Chico, trazendo a primeira virada tamanho GG no enredo de Benedito Ruy Barbosa (e de sua filha Edmara Barbosa e seu neto Bruno Luperi): o assassinato do Capitão Ernesto Rosa, numa atuação que Rodrigo Lombardi fez para assegurar seu lugar na memória da telefilia. A escolha da música de Geraldo Vandré, eternizada no filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos, só veio lembrar que a telenovela de Luiz Fernando Carvalho – gestada com a promessa de virar obra-prima – tem levado Cinema Novo para nossas casas noite após noite. Era da natureza do movimento cinemanovista nacional, entre 1962 e 1969 (ou seja, de Cinco Vezes Favela a Macunaíma) acender uma chama revolucionária capaz de repaginar o Brasil, a História e a própria arte audiovisual. A execução de Rosa foi construída numa analogia com a lendária sequência final de O Poderoso Chefão (pilar do cinemanovismo made in USA), na qual o batismo do filho de Michael Corleone era figuração para acertos de contas entre os mafiosos. A imolação do capitão, jurado de ódio na disputa com o coronel Afrânio (Rodrigo Santoro), foi uma espécie de tributo à tradição da modernidade na arte de fazer filmes. A citação a Coppola se mistura com a homilia sertaneja e rosiana de Vandré numa sopa de referências capaz de cozinhar Visconti, tropicalismo, Antonio Cândido (e seu Parceiros do Rio Bonito) sem diluir as especiarias que dão gosto a cada ingrediente. Engrossando o caldo que pôs no fogo em 1991 com Os Homens Querem Paz, seu nordestern formato Terça Nobre, Carvalho deu uma nova liga à fervura de nossas crises de identidade na dicotomia campo x cidade. É Cinema Novo Ploc, pop, crocante e coberto com calda suassúnica de lirismo e flocos de perplexidade marxista. De sua estreia, no dia 14, até hoje, o folhetim vem cumprindo sua missão de desbravar as veredas das convenções e da ferrugem narrativa, fazendo jus ao objeto de sua homenagem, ao sentimento de Novo que alimentou Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Ruy Guerra, Cacá Diegues. Uma revolução televisiva já se instaurou no esforço de dar à nossa TV uma busca pelo Belo. Um Belo que alimenta nosso peito frente aos turbilhões políticos que não são de hoje, que vieram para cá de caravela e cá ficaram. Mas, como Vandré cantou, “Há tanta vida pra viver/ Tanta vida a se acabar/ Com tanto pra se fazer/ Com tanto pra se salvar/ Você que não me entendeu/ Não perde por esperar”. Que nossos olhos sejam atendidos com mais.     

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