A hora da verdade para o cinema nacional nos ringues: José Aldo by Afonso Poyart

A hora da verdade para o cinema nacional nos ringues: José Aldo by Afonso Poyart

Rodrigo Fonseca

10 de junho de 2016 | 10h49

José Loreto e Rômulo Neto em combate no vulcânico

José Loreto e Rômulo Neto em combate no vulcânico “Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo”: o melodrama marcial de Afonso Poyart sobe ao ringue

Em 108 anos de ficção, assumindo-se Os Estranguladores (1908) como o marco zero do storytelling ficcional em nossas telas, quase toda vez em que o cinema brasileiro apostou num gênero diferente do humor para lotar salas de exibição, sobretudo de 1960 para cá, buscou-se algum argumento com base em fatos reais, como faz agora o vulcânico Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo, em cartaz a partir de 16 de junho. Basta lembrar de Assalto ao Trem-Pagador (1962), Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia (1976), Cidade de Deus (2002), Carandiru (2003), 2 Filhos de Francisco (2005), Bruna Surfistinha (2011) para listarmos blockbusters sem lugar para o riso, que fizeram do Real sua matéria-prima, abrindo licenças poéticas necessárias à fabulação. O novo longa-metragem de Afonso Poyart (de 2 Coelhos) – obrigatório pelo procedimento de direção de atores minucioso capaz de arrancar de José Loreto e de Rômulo Neto atuações pautadas mais pelo silêncio, pelo arfar e pelo olhar que pelo muque – segue essa linha e toma suas liberdades, sobretudo na difícil tarefa de rever o passado do lutador José Aldo com um pai que batia na esposa a cada carraspana no botequim. Sobretudo nestes tempos assolados pela barbárie do estupro coletivo, no qual a condição feminina ganha uma voz cada vez mais tonitruante na opinião pública, é uma opção de risco, abordada com sobriedade, com a ajuda de um ator de talentos múltiplos e carisma tamanho GG – Jackson Antunes – capaz de criar uma instância de distanciamento numa representação que trafega da brutalidade à culpa.

Só que não é só ao Real que Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo se reporta, uma vez que ele pertence a uma genealogia. Existe um traço de Clube da Luta (1999), filme-síntese da falência moral década de 1990, em sua estrutura dramática, mas este deve permanecer em silêncio para que não estrague as viradas e surpresas do roteiro. Mas a parentela do filme é mais antiga, dada num diálogo bem-humorado, no qual se fala sobre o Sr. Miyagi, lendário personagem de Pat Morita (1932-2005). Ali vem a chave, não só de uma referência histórica, mas de um modo de narrar.

Narrativa emula a força do vídeos esportivos

Narrativa emula a força do vídeos esportivos

É pouco citado – e, menos ainda, discutido – o fato de o diretor de Rocky, Um Lutador (1976), o subestimado John Guilbert Avildsen, ser também o realizador do filme que tornou as artes marciais uma presença doméstica nas casas do Ocidente: Karate Kid – A Hora da Verdade (1984). São dois filmes de superação, sendo o primeiro um tipo de Cinderella sociológico (trocando o sapatinho de cristal por shorts com a bandeira dos EUA e luvas de boxe) e, o segundo, um Pigmaleão no qual o menino-fracasso toma um banho de tatame até renascer como um vencedor. Imerso agora na pré-produção de um novo longa-metragem após anos de hiato – Stano, com Joe Manganiello – Avildsen nos deu a medida de que o “cinema de luta” é, antes de tudo, um melodrama, só que desenhado por uma trilha onde o terreno do físico é palco para o espetáculo da purgação – pois é por meio dela que se chega à ascese, à redenção.

Antes dele, obras-primas como O Invencível (1949), de Mark Robson, com Kirk Douglas, ou Réquiem Para Um Lutador (1962), de Ralph Nelson, com Anthony Quinn, já haviam testado este caminho, com êxito, mas sem o alcance pop que Avildsen teve entre o fim dos anos 1970 e o fim dos 80. Com Avildsen, o desamparo social a carência afetiva deixaram de andar em bifurcação e se tangenciaram, construindo um chão para que cenas de socos e pontapés ganhassem carne viva: e essa que fica roxa não pelos golpes dos ringues, mas pelas cacetadas da vida.

Diretor atento a um certo modelo de heroísmo desesperado, quase niilista, próximo do que fazem diretores-autores (seminais para o presente) como Christopher Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas) e Zack Snyder (300), Poyart segue essa linha na composição do arquétipo guerreiro de José Aldo em Mais Forte Que o Mundo, dando à imagem uma costura de estéticas de videoclipe, de documentário, de programas esportivos, de publicidade – que, a princípio, parecia inconciliável, mas que, no correr do filme, alcança uma harmonia visual convidativa – produzindo uma linguagem febril.

Mas o acerto maior é o fato de não rechear os momentos que antecedem as lutas com a choradeira melodramática da exclusão e sim com a busca pelo lado B de Aldo, pela metade negra dele, desterritorializando o bom-mocismo clássico do gênero. Loreto dá o melhor de si e explode na tela não pela fúria da testosterona, mas pela agonia muda de quem sofre por dentro o peso de carregar um pai agressor. A medida de sua virulência é dada por um velho inimigo deixado em Manaus, Fernandinho, uma espécie de Johnny de Karate Kid construído numa interpretação (surpreendente) de Rômulo Neto. Acerta-se ainda no espaço dado aos personagens coadjuvantes, que arrumam um jeito de brilhar, seja o garçom de lanchonete vivido por Francisco Gaspar (um ladrão de cenas, brilhante em seu tônus cômico), seja o treinador vivido por Milhem Cortaz. Este, um dos mais sólidos atores do país, foge do padrão “treinador Mickey”, o personagem de Burgess Meredith em Rocky: pois, a partir dele, toda figura desse naipe em filmes de luta adquire um timbre paterno. Cortaz tira o lado pai e incrementa o lado parceiro, amigo, diminuindo a carga épica, ciente de que ela já pesada demais nas costas de Loreto.

A amazona Cleo Pires: beleza e força

A amazona Cleo Pires: beleza na força

Há ainda espaço para um par romântico, como é essencial a filmes que se disponham a buscar o sucesso. Cleo Pires entra nesse universo de suor e lágrimas não como um alívio, mas como um motor. No papel da esposa de Aldo, ela não faz a mulher “do lar”, mas sim uma amazona brava, a ser conquistada pela parceria, pela troca, não pela força. É um ente que equilibra a presentação da vida de Aldo como um espaço de batalhas sucessivas.

Neste momento em que o cinema brasileiro clama pelo resgate do cinema de gênero, que vá além da neochanchada, fala-se muito do terror e pouco de filmes de ação, de dramas de esporte. Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo mete o pé na porta e faz lembrar que a paleta de cores do cinema de gênero vai além do horror. E o faz não com um heroísmo de conto de fadas, mas com uma carga pesada mais próxima de um Leão Branco – O Lutador Sem Lei (1990), de Sheldon Lettich, com o grande dragão belga Jean-Claude Van Damme. Este era um filme avassalador, de catarse, mas meio de dor e tristeza. Algo que se vê na história de Aldo. Algo que se sofre na porção mais recente da História do Brasil.

 

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