‘A Hora da Estrela’ comemora seus 40 anos nos palcos, em comovente tributo à prosa de Clarice Lispector

‘A Hora da Estrela’ comemora seus 40 anos nos palcos, em comovente tributo à prosa de Clarice Lispector

Rodrigo Fonseca

21 Janeiro 2017 | 16h01

A Hora da Estrela 7
RODRIGO FONSECA

Em seus 40 anos de existência, A Hora da Estrela (1977), último romance publicado em vida por Clarice Lispector (1920-1976), já rendeu as mais variadas alegrias à arte brasileira, com destaque para sua versão cinematográfica que deu à paraibana Marcélia Cartaxo o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim, em 1986. Agora, em meio às celebrações de suas quatro décadas, o calvário de Macabéa revive como peça,  no palco do Sesc Tijuca, no Rio de Janeiro, como uma espécie de aventura cênica de descoberta de novos sentidos e novas reflexões nas palavras da mais existencial das escritoras brasileiras. Há dez anos, Marcus Vinícius Faustini converteu o texto de La Lispector em forma de exercícios teatrais regados a Canzone Per Te, de Roberto Carlos. Mas é hora de novas sonoridades (pilotadas por Renato Frazão) embalarem a nova encarnação teatral deste ensaio sobre a “fealdade”. Em cartaz desde o dia 20 em solo tijucano, onde fica até 19 de fevereiro, em sessões de sexta a domingo, às 20h, a produção da Definitiva Cia. de Teatro, sob a direção de uma força da natureza chamada Jefferson Almeida (de Velho Chico), espatifa o osso da palavra literária atrás de novas sensorialidades e provocações.

4808 sépia final mais intensa 3Cesar Augusto Moura e Nicholas Bastos (4)

Na encenação, preservou-se a cautela que rege o livro, expressa em parágrafos como: É melhor eu não falar em felicidade ou infelicidade – provoca aquela saudade desmaiada e lilás, aquele perfume de violetas, as águas geladas da maré mansa em espumas pela areia. Eu não quero provocar porque dói”. E como Macabéa nos dói. Migrante de origem nordestina, Macabéa é um possível alter-ego de Clarice, que usa de um narrador fictício (outro alter-ego), Rodrigo S.M., para colocar a própria construção da narrativa em perspectiva. Nesta adaptação, a Definitiva Cia. de Teatro faz uma espécie de jira, compartimentando Macabéa, S. M. e os demais personagens entre seus atores, incluindo talentos como Livs Ataíde, Marcelo de Paula, Paula Sholl,  Tamires Nascimento, Gustavo Almeida, João Vitor Novaes e Yves Baeta.