‘A Grande Aposta’ é uma aula de roteiro, cítrica e obrigatória

‘A Grande Aposta’ é uma aula de roteiro, cítrica e obrigatória

Rodrigo Fonseca

23 de dezembro de 2015 | 12h50

Christian Bale tem uma atuação arrasadora como o financista que conseguiu prever a falência bancária dos EUA

Christian Bale tem uma atuação arrasadora como o financista que conseguiu prever a falência bancária dos EUA

Indicado a quatro Globos de Ouro, incluindo o de melhor filme, A Grande Aposta (The Big Short), de Adam McKay, pode, sem dúvida alguma, ser considerado o filme com o roteiro mais audacioso e criativo desta temporada de prêmios à espera do Oscar 2016, com astúcia expressa em humor negro, diálogos de uma acidez borbulhante e deixas para grandes atores solarem. A inspiração vem do livro homônimo de Michael Lewis, decalcado da realidade. Mas o livro vira matéria de gargalhada nervosa nesta produção de US$ 28 milhões. A sensação que dá é a de estarmos assistindo a um documentário do Michael Moore em formato de ficção. Christian Bale, majestoso no papel do diretor de um fundo de investimento com um olho de vidro e temperamento excêntrico, é a figura que movimenta esta radiografia dos eventos que antecederam a crise econômica de 2008, durante a qual Obama assumiu a Casa Branca. Mas quem rouba a atenção para si é Ryan Gosling num papel de comentador, que narra/ reflete sobre a ação (ou melhor, na ruína anunciada à sua volta), enquanto descreve a destruição da economia americana a partir da especulação imobiliária e de jogatinas ilícitas. O conteúdo factual de tragédia é traduzido na tela como uma comédia.

É uma tragicomédia agilíssima e cítrica no riso, cuja montagem funde elementos de videoclipe, programas de humor, arquivos de jornal, notícias, gráficos. É cinema infográfico, que demarca a evolução de Adam McKay, realizador do cultuado O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy (2004), na direção de longas-metragens, pilotando um elenco AA. Estreia aqui: 14 de janeiro.

Steve Carell tem uma atuação caricata

Steve Carell tem uma atuação caricata

Produtor do longa, a partir de sua Plan B, Brad Pitt tem um papel curtinho, como um especialista em mercado financeiro já aposentado, que volta à ativa para ajudar dois jovens a entender o jogo das cadeiras causados pela política dos collateralized debt obligation (CDO). Trata-se de uma prática de manipulação de verbas aplicadas às hipotecas negociadas pelos bancos. Michael Berry, o personagem de Bale, é quem primeiro fareja que essa bolha vai explodir e detonar o país. Sua movimentação desperta o interesse do administrador Mark Baum, papel construído para dar um Oscar a Steve Carell, mas o esforço desmedido do ator de O Virgem de 40 Anos (2005) para expor seus dotes dramáticos, na pele de um investidor assolado por traumas e carregado de tiques, esbarra na caricatura. Mesmo assim, o filme tem sequências padrão primor em seu aspecto de infográfico sobre a América e seus desgovernos.

Em matéria de roteiro, o único outro grande (com G colossal) roteiro desta temporada é Os Oito Odiados (The Hateful Eight), que estreia nos EUA neste Natal, mostrando o quanto Quentin Tarantino se supera filme a filme como dialoguista, tendo em Jennifer Jason Leigh um trunfo para se imortalizar na história dos faroestes.

“Os Oito Odiados”: obra-prima do western na grife Tarantino

A briga daqui até o Oscar (28 de fevereiro) vai ser boa.

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