‘A Glória e a Graça’ é um estudo sobre resignação

‘A Glória e a Graça’ é um estudo sobre resignação

Rodrigo Fonseca

30 Março 2017 | 16h23

Flávio R. Tambellini dirige Carolina Ferraz em

Flávio R. Tambellini dirige Carolina Ferraz em “A Glória e a Graça”: um degrau a mais para a atriz na representação de fraturas afetivas familiares

RODRIGO FONSECA

Tem algo de Bette Midler – não seu lado histérico, mas sua pombajirice inata – no jeito de Carolina Ferraz compor a mulher trans de A Glória e a Graça, melodrama agridoce com cores de Almodóvar cerzido a fofura e debate que chega ao cartaz nesta quinta. Há um filme meio esquecido da atriz e cantora americana, Que Sorte Danada (1987), do subestimado Arthur Hiller (de Love Story), na qual ela e (a genial) Shelley Long são viúvas de um mesmo namorado que se encontram enredadas numa confusão (com risco de vida) criada por ele. O choque entre as duas vai do estranhamento à aceitação sempre com foco nas incompatibilidades do afeto. É mais ou menos o que se desenha na queda de braço entre as personagens vividas por Carolina e Sandra Corveloni na trama filmada por Tambellini (produtor de sucessos como Carandiru) com inspirada fotografia de Gustavo Hadba, que diante da premissa, foge do lugar comum (ou seja da saturação, do excesso) e vai descolorindo o quadro cena a cena, esvaziando inflamações. É a somatização de uma linha dramatúrgica na qual se passeia, a galope, do desespero ao acalanto.

 

O mesmo jeitão “tomba-homem”, de fala grossa e cabelos crespos da Bette Midler de seus melhores filmes se faz notar no perfil afirmativo e reativo de Glória, trans que deu uma banana para as convenções de seu passado (quando era Luiz Carlos) a fim de ser o que queria. No perfil esculpido a partir de uma entrega comovente por Carolina, o exercício de seu desejo e de seus sonhos é seu norte, expresso num ar impetuoso de passar feito trator sobre qualquer adversidade. Mas nem todo pretérito é perfeito fora da escrita: na gramática da vida, as linhas tortas reverberam toda e qualquer ação mais brusca que se aplica sobre elas. E por isso, Glória terá de rever o que deixou para trás. Deus perdoa; a História, não. E, na história pessoal da empresária de seios voluptuosos e coxas roliças havia um homem que foi deixado para trás, sem resquícios. Porém ninguém avisou isso para Graça, o único quinhão de “vale a pena” que ficou da rotina antiga de Luiz Carlos. Graça era sua irmã… ainda é… E ser é estar nos códigos da construção melodramática.

Terra do excesso, pois o excesso é didático (nos ensina a sobreviver), o melodrama é exigente no uso do verbo “sofrer”. E uma pessoa nascida com nome divino, Graça, mãe de dois filhos a quem ama de paixão, não poderá nunca sofrer pouco. Por isso, ela tem um aneurisma em vias de explosão. Alguém precisa zelar por seus rebentos. Só um parente pode fazer isso com amor. É aí que a lembrança de Luiz Carlos ganha vulto maior: a saudade dele sempre esteve lá, sobretudo frente as contas que ambos tinham a resolver. Mas agora os artigos definidores dele mudaram. Os pronomes também. Ele virou ela, sabe-se “ela”, quer-se “ela”. É necessário que Graça se submeta a um ritual de reeducação sentimental para lidar com seu… sua irmã. É nesse rito reeducativo que Lusa Silvestre, coautor do roteiro (com Mikael de Albuquerque), descortina o que tem de melhor em seu estilo (vide O Roubo da Taça e Estômago): a percepção das miudezas do cotidiano, do açafrão da mesquinharia nossa de cada dia, das especiarias do comezinho.

 

Mas não é a homofobia nem o tabu o que guia as rédeas de A Glória e a Graça, e sim a resignação, substantivo comum a todos os (bons) filmes dirigidos por Tambellini, em sua porção cineasta, desde o curta-metragem Tim Maia (1987). Em sua obra, de traço autoral, há sempre um personagem que delimita bem o seu tamanho e faz daquele cantinho de subjetividade uma ilha de proteção. Em Bufo & Spallanzani (2000), por exemplo, o delegado Guedes (Tony Ramos) poderia crescer (sobretudo aceitando subornos), mas não quer. Gosta das fronteiras de sua pequenez, de seu escaninho, de seu escritório, de sua colt .38. No doído O Passageiro – Segredos de Adulto (2006), o banqueiro metido a piloto vivido por Antonio Calloni se recalca em sua onipotência para não incorrer no ponto morto de uma paternidade amorosa, que exigiria dele se expor em suas mais obscuras fragilidades. O conquistador vivido por Macelo Serrado em Malu de Bicicleta (2010) quer levar todas as mulheres do mundo para cama, mas não se imagina deixando o castelo de sua infantilidade perpétua. Enfim… todos se resignam em algo. Graça se resignou nos deveres. Glória aparentemente não se resignou a nada (é o que parece). Mas para ser mãe ela precisa não apenas mimetizar os modos de amar da irmã como também reproduzir o jeito resignado que esta tem de lidar com os contratempos, com as responsabilidades. Mas não se transforma vinagre em geleia doce. Da mesma forma não é fácil esperar que a glória vire graça. Extremos se distanciam. Mas aqui, aproximadas elas são metades de um mesmo querer, de uma mesma ausência, de um mesmo diretor, em quem nem sempre o cinema nacional presta a devida atenção.

Cotação: Ótimo