A garota do tambor pelo mundo

A garota do tambor pelo mundo

Rodrigo Fonseca

27 de agosto de 2019 | 13h25

Rodrigo Fonseca
Lançado em outubro de 2018 no BFI – London Film Festival, a minissérie “The little drummer girl” começa agora a fazer carreira pelas telas da TV da Europa, após colecionar elogios em sua terra natal, a Inglaterra. Na direção do projeto está o sul-coreano Park Chan-wook (diretor do cultuado “OldBoy”, 2004). O aclamado cineasta pilotou a produção para a BBC a partir do romance “A garota do tambor”, de 1983, dividido agora em seis episódios . Aos 87 anos, o autor do livro, o ás da literatura de espionagem David John Moore Cornwell, ou apenas John le Carré, foi o supervisor da adaptação de sua prosa. Florence Pugh (de “Lady Macbeth”) é a menina do título, peça estratégica numa operação antiterror envolvendo o serviço secreto de Israel, nos anos 1970, entre bombardeios e paixões também explosivas. Sua exibição na emissora da Grã-Bretanha ocorreu em outubro de 2018.

“Vou sempre beber na literatura porque os livros abrem as portas da mesquinharia que rege a sociedade”, disse o cineasta de 56 anos, classificado entre os críticos do Brasil de “rodriguiano”, por sua visão trágica sempre ligada ao desejo e aos interditos morais do prazer, como se vê na obra de Nelson Rodrigues (1912-1980).
Chan-wook foi a Londres para o lançamento no ano passado e saiu de lá cercado de pompas. O BFI prometeu um papo ao vivo dele com a imprensa, mas não cumpriu, ampliando a curiosidade sobre a tônica tragicômica e erotizada de sua obra audiovisual: neste atual projeto pautado em le Carré, a atriz de teatro vivida por Florence faz da libido uma arma. Abordado sobre sua possível relação com o autor de “Os sete gatinhos” pelo P de Pop, num corredor do Palais des Festivals, em Cannes, em 2016, logo após ter declarado em público seu entusiasmo pela literatura latino-americana, Chank-wook afirmou não ser familiar à prosa do Anjo Pornográfico. “Há uma dimensão pouco falada no meu cinema, feita de forma consciente, que é o meu interesse em criar um jogo de espelhos, em que entendemos diferentes fatos sob distintos pontos de vista, compreendendo que o amor não tem nacionalidade, estando à mercê apenas das diferenças de classes sociais ou de nossos fardos patrióticos”, diz o cineasta, que após o sucesso do erótico “A criada” (2016) embarcou nesta minissérie para a BBC.


Na trama, Charlie (Florence) disfarça seus ideias políticos em peças militantes de pouca expressão até que, em uma viagem à Grécia, conhece um adônis misterioso, Becker (Alexander Skarsgård), que trabalha para o serviço secreto de Israel. Becker e seu superior, Marty (Michael Shannon, em sublime atuação), convencem Charlie a ajuda-los na busca pelo culpado de um atentado contra um político israelense na Alemanha. Só uma civil pode despistar a célula palestina ligada ao crime. Começa aí o perigo, um jogo de sedução e um clima de tensão que Chan-wook imprime na tela com eficiência de craque, explorando a complexidade da jovem Charlie. “O reino do cinema ainda dá pouco valor a um protagonismo feminino que possa desafiar arquétipos”, disse o cineasta, ciente de que John le Carré não é fã da versão anterior de “A garota do tambor”, feita para o cinema em 1984, por George Roy Hill, com Diane Keaton.

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