‘A Garota da Pulseira’ na corte do César

‘A Garota da Pulseira’ na corte do César

Rodrigo Fonseca

11 de março de 2021 | 11h54

RODRIGO FONSECA
Sexta é dia de César, o Oscar francês, que vai ser entregue pela Académie des Arts et Techniques du Cinéma em cerimônia presencial, na sala de espetáculos L’Olympia, respeitando todos os protocolos acerca da covid-19, tendo a atriz Marina Foïs como apresentadora e tendo o tenso “A Garota da Pulseira” (“La Fille Au Bracelet”) como o mais forte candidato ao prêmio de melhor roteiro adaptado. É um filme de imersão na cultura jurídica da pátria de André Cayatte (1909-1989), advogado e diretor consagrado como um papa do thriller de tribunal. A França sempre acendeu holofotes para longas-metragens de corte, fascinada pela cartilha do gênero, indo além dos códigos talhados por Hollywood, explorando quiprocós de juízes, promotores, meirinhos e afins também nos streamings, como se vê na série “Criminal”, com Margot Bancilhon, hoje na Netflix. É hora de o César reverenciar essa linhagem, ainda que o longa com o maior número de indicações seja o drama romântico “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”, de Emmanuel Mouret. O favoritismo do prêmio de direção se bifurca entre “DNA”, de Maïwenn, e “Verão de 85”, de François Ozon.

Exibido por aqui no Festival Varilux, “A Garota da Pulseira” aborda o impacto de uma acusação na vida de uma jovem. Seu realizador, Stéphane Demoustier, foi elogiado (e premiado) na Berlinale 2018 por “Cléo & Paul”, no qual já demonstrava interesse pelas vicissitudes do adolescer. Só que ele voltou ao tema associando-o à violência, apoiando-se na presença de Chiara Mastroianni e Roschdy Zem no elenco.
“Existe uma dificuldade crescente de se entender a cabeça da juventude contemporânea. Sempre foi difícil entender como os jovens pensam, mas, agora, é importante entender quais são as angústias de quem é jovem em tempos onde há muita informação, mas também muito desentendimento”, diz Demoustier ao P de Pop em entrevista via Zoom. “É necessário ter muita quietude aqui para desbravar a intimidade de quem está à mercê da Justiça”.
Demoustier abre seu filme com uma cena feliz que acontece numa praia no verão: uma família está curtindo o mar, quando, de repente, dois policiais chegam e levam embora a adolescente de 16 anos Lise Bataille (Melissa Guers). Ela é acusada de apunhalar e matar sua melhor amiga, Flora, no dia seguinte a uma festa. Após essa prisão, a trama se concentra no julgamento de Lise no tribunal criminal, que ocorre dois anos depois, após dois anos de investigação que a jovem passou parte encarcerada e parte em liberdade condicional, com uma tornozeleira eletrônica. Não sabe se ela é culpada ou inocente: a cada testemunha, há um novo senso sobre o caso.
“Qual é a noção de ‘verdade’ que ronda um processo jurídico? Não haveria como perseguir o universo de Lise como um documentário, na abordagem que meu roteiro busca: o que ele deseja é explorar as sensações de medo, de culpa, de solidão da personagem”, diz Demoustier, que exibiu a história de Lise no Festival de Locarno, na Suíça, em 2019, na Piazza Grande.
Livremente inspirado no caso real de Amanda Knox, suspeita de ter matado uma amiga, na Itália, em 2007, “A Garota da Pulseira” se baseia frontalmente em um filme argentino indicado ao Leão de Ouro de Veneza: “Acusada”, de Gonzalo Tobal. Esta produção sul-americana partiu também dos processos ligados à investigação de Amanda. Tobal e Demoustier seguem uma linha similar: entender como sua protagonista lida com a dor de ser encarada como assassina, entendendo ainda o dilema de seus pais. “Nosso trabalho nesse filme foi combinar códigos do suspense de tribunal e dilemas afetivos”, diz Demoustier. “Parto de um gênero tradicional da França para estudar pessoas a partir das neuroses de hoje”.

p.s.: No dia 30 de março, o cineasta e encenador Moacyr Góes vai ministrar o curso online “A Invenção da Arte do Teatro”. As inscrições podem ser feitas pelo link http://blt.ly/moacyrgoes.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.