A folia de Marcelo Gomes veste calça jeans

A folia de Marcelo Gomes veste calça jeans

Rodrigo Fonseca

07 de julho de 2019 | 12h43

Rodrigo Fonseca
Com circulação em circuito nacional assegurada a partir desta quinta-feira, na Sessão Vitrine, a aula de geografia dos afetos “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, guiada pela cartilha da sabedoria pernambucana, promete encantar o público de seu país com a mesma força que surpreendeu as plateias do Festival de Berlim, em fevereiro. O filme de Marcelo Gomes teve uma breve passagem por nossas telas no É Tudo Verdade e de lá saiu com o Prêmio da Crítica. Dois anos depois de sacudir a seleção oficial de Berlim com o “Game of Thrones” brejeiro “Joaquim” (2017), Gomes regressou este ano às telas alemãs com um documentário sobre a capital brasileira da calça jeans em pleno Nordeste, Toritama. Sua exibição alemã foi dedicada ao cineasta Eduardo Coutinho, morto em 2004, no Rio.

Não há nele a mecânica palavrosa dos filmes mais famosos de Coutinho, realizados a partir de “Santo forte” (1999), mas tem algo do belíssimo “Moscou”, que o cultuado documentarista rodou em 2009, a partir da encenação de uma trupe teatral. Coutinho queria extrair linguagem (e, dela, sentido) de um processo. Gomes faz o mesmo, só que numa dinâmica à la Dziga Vertov, com foco na observação de ritos a partir de uma passagem curta de horas (ou dias, tanto faz) que sintetizem sensorialmente a rotina de Toritama. Sorrisos e gestos de preguiça contam, às vezes, mais do que palavras, com destaque para a sequência em que a câmera faz um corpo a corpo com a imagem de um pequeno empresário que confecciona cortes muito particulares de jeans, usando-se como modelo vivo de suas peças. Gomes consegue transformar o que parecia ser um filme sobre trabalho (e mais valia marxista) numa reflexão existencial – e carnal, numa lógica mais aristotélica do que platônica – acerca das estratégias nossas de apreensão e fruição do Tempo. Em Toritama, o povo não quer ter patrão. Quer ser senhor de sua matéria viva de trabalho. Mas a autonomia, que seria uma carta de alforria, pode virar uma outra forma de escravidão, no terreno da afetividade. Cada um que arque com a sua escolha, pois o bloco da sobrevivência está na rua.

 

Com uma elegância singular, Gomes se inclui como personagem no filme, como sujeito de contracampo, usando o fato de ter ido a Toritama quando menino, com seu pai. A memória serve de norte a esse regresso do diretor do eterno “Cinema, aspirinas e urubus” (2005) a uma região que hoje é diferente do idílio da recordação. Diferente porque viveu… viveu-se… prosperou-se entre máquinas e panos azuis, que caem da tela, em margem de corte, num gesto de sinestesia pura.

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