‘A Febre’ vence festival de Jia Zhangke

‘A Febre’ vence festival de Jia Zhangke

Rodrigo Fonseca

16 de outubro de 2019 | 10h15

RODRIGO FONSECA
Tombada como patrimônio histórico em 1997, Pingyao, cidade da China que, desde 2017, sedia um festival internacional encabeçado pelo cultuado diretor Jia Zhangke (de “As Montanhas Se Separam”), acaba de acolher mais uma vitória para o placar de sucessos do cinema brasileiro em 2019: “A febre”, de Maya Da-Rin, recebeu o Robert Rossellini Award de Melhor Filme. A produção, centrada em conflitos existenciais de um vigia de origem indígena de Manaus, já havia abocanhado láureas em Biarritz e em Locarno, onde fez sua estreia mundial, em agosto. Kleber Mendonça Filho, diretor do aclamado “Bacurau”, também integrou o cardápio do evento chinês de onde Maya saiu premiada, com direito a uma masterclass sobre sua estética. Seu nome figura também entre o time de jurados.

Em “A febre”, Nas telas, vemos Manaus como uma cidade industrial cercada pela Floresta Amazônica. Nela, Justino (papel de Regis Myrupu), um indígena Desana de 45 anos, trabalha como vigia no porto de cargas. Desde a morte de sua esposa, sua principal companhia é sua filha mais nova, Vanessa, com quem vive em uma casa na periferia. Enfermeira em um posto de saúde, Vanessa é aceita para estudar medicina em Brasília, e terá que partir em breve. Com o passar dos dias, Justino é tomado por uma febre forte, sem explicação aparente. A moléstia aparece quando ele passa a ser investigado pela equipe de RH do porto, por ter (supostamente) dormido em serviço. Durante a noite, uma criatura misteriosa segue seus passos, rondando seu ambiente. Durante o dia, ele luta para se manter acordado no trabalho. A rotina tediosa do porto é quebrada pela chegada de um novo vigia, Wanderley, interpretado por um inspirado Lourinelson Vladimir. Enquanto isso, a visita de seu zeloso irmão faz Justino rememorar a vida na aldeia, de onde partiu há 20 anos. Entre a opressão da cidade e a distância de sua aldeia na floresta, Justino já não pode suportar uma existência sem lugar.

“Acho que todos os indígenas são heróis. Depois de terem vivido o fim do seu mundo há mais de quinhentos anos e resistido ao maior massacre da História, aqueles que sobreviveram e seguem lutando para sobreviver são os maiores heróis que a humanidade já conheceu”, disse Maya ao Estadão na passagem de “A febre” por Locarno, onde ganhou o Prêmio da Crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) e o Prêmio de Melhor Ator, dado a Regis Myrupu. “Com certeza, no filme, a figura de Justino é a de um herói. Mas Justino também é um personagem com o qual eu poderia cruzar no meu cotidiano. E isso foi o que mais me interessou enquanto eu escrevia o argumento. Queria fazer um filme sobre os seus dilemas existenciais. Sabemos da propensão do cinema em ‘exotizar’ as culturas indígenas e da tendência em enxerga-las por um prisma romântico e positivista, como remanescentes daquilo que as culturas ocidentais foram no passado e não como as sociedades complexas e atuais que são”.

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