‘A febre’ ferve testas em Locarno

‘A febre’ ferve testas em Locarno

Rodrigo Fonseca

09 de agosto de 2019 | 09h00

Justino encara uma doença febril em meio à aparição de um animal selvagem em sua vizinhança, no longa de Maya Da-Rin

Rodrigo Fonseca
Radiografia de um território metafísico chamado essência, fustigado pela guerra entre cultura formal e tradição, “A febre”, de Maya Da-Rin, traduz, de modo inquietante, a violência contra os povos indígenas do Brasil dos dias de hoje (e dos de ontem) com um diálogo entre seu protagonista, o vigia Justino (Regis Myrupu) e um colega de trabalho, Wanderley, encarnado pelo sempre avassalador Lourinelson Valdimir. Este diz, em referência a um antigo trabalho: “Na fazenda, a gente andava armado, porque dava índio, mas índio de verdade, não esses que amansaram”, fala olhando para seu companheiro, de maneira abusada. A fala coroa uma autópsia em corpo vivo de uma relação defunta de respeito mútuo entre os dois – e, de certa medida, dos latifundiários brasileiros com os povos indígenas. Relação febril, que a cineasta levou para a briga pelo Leopardo de Ouro do Festival de Locarno. Apoiada num mergulho existencial nas inquietação de Justino, composto por Myrupu com uma retidão que lembra os samurais de Toshiro Mifune, a produção abriu a mostra competitiva na tarde de quinta e teve mais uma sessão nesta manhã. Ao fim dela, veio uma salva de aplausos que durou uns bons três minutos – de acordo com o relógio do P de Pop.  

Sua diretora já fez barulho no exterior antes, em 2010, com “Terras”. Agora, de volta à direção, ela retrata a realidade dos índios de Manaus, que vivem e trabalham fora de reservas, ao seguir a rotina de Justino (Myrupu, que colaborou no roteiro). Viúvo, ele ganha a vida como vigia de um porto de cargas. Na trama de Maya, Justino entra em um estado febril no momento em que o bairro onde mora é assolado pela presença de um animal selvagem. Fala-se do tal bicho o tempo todo na TV. Há uma cena em que um especialista em ecossistemas se refere a ele como sendo um cachorro. Não um cachorro do mato e, sim, um “cão doméstico avesso àquele meio”. Talvez esse cão seja Wanderley, que late intolerância para Justino.

Pautada por uma distensão que favorece silêncios e contemplações na medida das travas e das dúvidas de Justino, a edição de Karen Akerman permite que o espectador descasque o que parece ser uma metáfora fantástica, esbarrando num debate mais sociológico sobre o quão bárbara é a lógica civilizatória do “aculturalmento”. Fora o colega de farda brucutu, Justino tem que engolir hipóteses acerca de seu “amansamento” de familiares que ama. Mas a seiva estética da floresta ficou em sua alma e se expressa nas histórias que conta para um menino, falando de macacos e caçadores. O que parece ser fantasia revela uma humanidade de pé descalço a uma narrativa que no evoca, por uma relação de parentela, cults de Apichatpong Weerasethakul, como “Cemitério de esplendor” (2015), com sua doença do sono, e “Mal dos trópicos” (2004), com sua selva tailandesa suarenta. Mas o que há de mágico no multiartista visual da Tailândia dá lugar há algo de mais biológico no filme de Maya, com fotografia de Barbara Alvarez, sempre atenta à ciranda de tons de verde à sua frente.

Esta noite, Locarno confere o explosivo thriller germânico “7500”, com o ator americano Jospeh Gordon-Levitt no ápice de sua maturidade, dez anos depois de seu boom com “(500) dias com ela” (2009). O diretor Patrick Vollrath vem à fofa cidadezinha suíça nesta sexta para falar do clima de tensão que depura ao longo de 92 minutos dentro de uma cabine de um avião sequestrado por terroristas.

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