‘A Fábrica de Nada’, fora premonições

‘A Fábrica de Nada’, fora premonições

Rodrigo Fonseca

19 de março de 2020 | 10h21

Rodrigo Fonseca
No atual estado de coisas do planeta, sob quarentena, certos filmes que marcaram a década são alvos de uma análise filosófica na busca por indícios premonitórios da Arte na reflexão do Real, como é o caso de “Contágio” (2011), de Steven Soderbergh, que ressuscitou com força total e não sai da grade da HBO, na esteira do Coronavírus. Mas há produções de abordagem menos “on the nose” para os colapsos do Presente… quiçá do Futuro… que necessitam de uma revisão urgente, sobretudo aquelas que, quando revistam, presenteiam nosso olhar com mais e melhores signos, como é o caso de “A Fábrica de Nada”, onipresente na grade no Telecine Cult. Laureado no Festival de Cannes de 2017 com o Prêmio da Crítica, dado anualmente pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), o longa-metragem português conquistou pra si o adjetivo “obra-prima”, em seu exercício de ativismo político. A direção é do jovem cineasta lisboeta Pedro Pinho, de 42 anos. Trata-se de uma produção de €600 mil com quase três horas de duração, misturando coreografia de musical (com empilhadeiras, guinchos e caixotes), drama de realismo social, comédia e reflexões documentais. Na Croisette, a plateia veio abaixo, numa ovação, quando um dos personagens do longa-metragem desabafa: “O mundo não se divide mais entre Direita e Esquerda, mas sim entre aqueles que se submetem e aqueles dispostos a abrir mão de seus sonhos, dos telefones celulares, das viagens à Lua”.

“Nas bilheterias de meu país, fizemos cerca de 10 mil espectadores, o que é um sucesso para o padrão do circuito português, sobretudo na linha dos filmes de autor e, sobretudo, se você avaliar nossa duração. Existem 10.000.000 de Portugais no meu país, cada um com uma necessidade e com uma experiência pessoal muito particular com o mundo operário. Do momento em que nós escrevemos o roteiro de ‘A fábrica de nada’ até sua estreia estreia aí no Brasil, em 2018, uma série de problemas de desajuste social que estavam acontecendo em Portugal se agravaram. E não foi só no meu país”, ponderou Pinho, dando voz a uma série de debates que seu filmaço encampa. “Todas as aberrações políticas que ganharam peso nos últimos anos, como Donald Trump e o Bolsonaro, tiveram suas dimensões ampliadas. Daí eu ter uma história em que o crescimento da economia gera loucura coletiva”.

Na trama, um grupo de operários se encrespa com a administração de sua indústria (de elevadores) ao perceber que alguém da gerência está roubando máquinas e matérias-primas. Incomodados, os trabalhadores fazem um levante, que tem um ônus: todos serão obrigados a permanecer em seus postos, sem nada para fazer, enquanto prosseguem as negociações para uma demissão coletiva. No ócio, acontecimentos e ritos nada usuais tomam conta do lugar, gerando sequências hilárias e muita perplexidade diante de inquietações éticas.

Militante da causa da perplexidade, ciente de nossa orfandade em relação à falência dos metadiscursos políticos que outrora explicavam e confortavam o mundo (o marxismo, o anarquismo, e até o socialismo cristão), “A fábrica de nada” costura números musicais com trechos documentais e situações cômicas quase caricatas com dramas realistas. Essa mistura feita por Pinho (conhecido antes por “As cidades e as trocas”) é das mais radicais – e, ao mesmo tempo, das mais harmônicas – que o cinema contemporâneo já viu. Daí a conquista do diploma da Fipresci na Croisette. Tudo nesta joia é registrado numa fotografia esmaecida, na qual a câmera de Vasco Viana rejeita excessos de cor e luz. Tudo está esgotado, como o mundo. Existe um mote: a demolição da lógica fabril herdada dos 1800 e, até hoje, vigente, como um zumbi da História. Existe aqui uma vivência: as tensões geram invenções, desde coreografias dos trabalhadores até digressões de teóricos. E, a um dado momento, brota uma frase romântica – “O filho da p… do amor, se for mesmo amor, é incondicional” – provando estarmos diante de um olhar terno sobre pessoas, e não de uma tese sociológica. E a montagem primorosa galvaniza a poética de alarmismo de Pinho.

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