‘A Fábrica de Nada’: azeite português na mesa de Cannes

‘A Fábrica de Nada’: azeite português na mesa de Cannes

Rodrigo Fonseca

24 Maio 2017 | 19h40

Com 2h57 de ironia e invenção narrativa, “A Fábrica de Nada” leva um gosto de cinema autoral português para Cannes

RODRIGO FONSECA
Falta pouco para o fim do 70º Festival de Cannes mas Portugal não vai deixar a festa mais nobre do cinema autoral do mundo sem demarcar pra si um quinhão de terra nesse latifúndio de invenção: A Fábrica de Nada, uma produção de quase três horas de duração, misturando musical, realismo social, perplexidade e humor vem marcar a presença de nossa antiga metrópole na Croisette. Há quem diga que a produção, com direção de Pedro Pinho (de Um Fim do Mundo) pode ser a experiência de linguagem mais ousada do evento, que recebeu nesta quarta o desconcertante O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled), de Sofia Coppola, título (até agora) mais perturbador entre os quase 400 filmes selecionados pela curadoria cannoise. Mas há quem diga que os portugueses vão perturbar a cidade ainda mais com este looooonga-metragem escalado para a Quinzena dos Realizadores, canteiro de descobertas de onde saíram joias como Alive in France, de Abel Ferrara, L’Amant d’um Jour, de Philippe Garrel, e A Ciambra, de Jonas Carpignano. A sessão é nesta quinta. Nossos patrícios sempre tiveram boa sorte nessa seção paralela à briga pela Palma de Ouro. Foi lá que nasceu o épico cítrico e crítico As 1001 Noites, de Miguel Gomes, em 2015. O exercício narrativo de Pinho pode ter uma linha tão livre e anárquica quanto a de Miguel. Ou, no mínimo, provocar tanto quanto ele provocou aqui.

Pedro Pinho dirige o longa lusitano

Em A Fábrica de Nada, um grupo de operários se encrespa com a administração de sua indústria (de elevadores) ao percebe que alguém da gerência está roubando máquinas e matérias-primas. Incomodados, eles fazem um levante, que tem um ônus: todos serão obrigados a permanecer em seus postos, sem nada para fazer, enquanto prosseguem as negociações para uma demissão coletiva. No ócio, acontecimentos e ritos nada usuais tomam conta do lugar.

Há um curta-metragem brasileiro na Quinzena: Nada, do mineiro Gabriel Martins. Aliás, todo dia que essa mostra abre suas sessões, há um clipe relembrando os grandes diretores que passaram por lá no passado. E sempre tem lugar nessa tapeçaria cinéfila de saudades para Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade.

Nesta quarta, a Quinzena viu seu filme mais sofrível: o colombiano La Defensa Del Dragón, que incorre em toda a sorte de clichê do cinema indie americano (silêncios quilométricos, personagens apáticos, trama inerte) no esforço de afirmar uma inteligência descolada que não tem. O enredo segue o cotidiano de três grisalhos amigos: um bamba do xadrez, um relojoeiro e um homeopata. Bogotá nunca pareceu tão desbotada no cinema.