‘A Divisão’: a cavalgada dos proscritos da Lei

‘A Divisão’: a cavalgada dos proscritos da Lei

Rodrigo Fonseca

28 de janeiro de 2020 | 09h24

Rodrigo Fonseca
Escorrem litros de uma embriagadora adrenalina – substância cuja produção em nossas veias audiovisuais foi embotada por “sociologices” diversas – a cada tomada de “A Divisão”, obrigatório thriller hoje em cartaz no circuito nacional. E é nesse caldo grosso que o longa-metragem cozinha um estudo sobre o individualismo (extremo) em células institucionais estatais – no caso, a polícia. É um estudo capaz de evocar um certo cinema B de elite feito nas franjas de Hollywood nos anos 1980. A complexa rede de relações estabelecida em volta de uma unidade de combate a sequestros, no Rio de Janeiro dos anos 1990, sob as ordens de um poço de retidão fardado, o oficial Mendonça (papel de brilho para Silvio Guindane), evoca uma estética rústica na qual o artesão Walter Hill deitou e rolou entre 1981 e 1990. Desse período de profícua produtividade do sumido cineasta californiano se destacam dois títulos que estabelecem frontal diálogo com a “rataria” pela qual Mendonça circula: “48 horas” (1982) e “O limite da traição” (1987), ambos com Nick Nolte. É com eles que o cineasta carioca Vicente Amorim (de “Motorrad”) mais e melhor parece estabelecer uma parentela histórica. A analogia entre eles se dá não apenas por uma forma de brutalidade que não usa amortecedor, mas pela verve política embalada em pop. O que existe de mais fascinante no longa de Amorim – nascido com a grife do Afroreggae, também como série de TV, já no ar no GloboPlay – é a atomização das convenções de protagonismo, em prol de uma análise de linha geográfica. Se existe um epicentro dramatúrgico no filme, ele cabe ao Rio… a um RJ de ontem, que permanece vivo em suas imundices feudais. Nesse Rio, são necessários pactos. Almas não são vendidas ao Diabo com D maiúsculo e sim a qualquer demoniozinho de beira de umbral que assegure um lucro provisório. Daí a evocação e o elogio a Hill: nos longas do americano, as figuras vividas por Nolte sempre tinha que pactuar com o Mal, fosse um mal menor ou não. E com Amorim a coisa é parecida.
Desde sua estreia como realizador de longas de ficção, com o subestimado “O Caminho das Nuvens” (2003), Amorim se interessa por protagonistas cuja percepção é embotada por um olhar alienado (por vezes ideológico de mundo). Mendonça sabe que o RJ virou uma vala no que envolve a noção do “proteger e servir”: virou “proteger é servir… os poderosos”. Mas há nele um instinto de cuidado com o próximo (que Guindane expressa como dor, numa atuação gargarejada, madura). E é esse instinto que vai atrapalhar suas decisões, ao assinar a venda de sua alma para trabalhar com um trio de corruptos. Mas é essa a sina dos (anti)heróis de Amorim. Lá no início dos anos 2000, em sua primeira ficção, Wagner Moura não olhava nada a seu redor, empenhado no objetivo de arrumar um emprego capaz de pagar a ele R$ 1 mil: mesmo que para chegar a esse trabalho ele precisasse arrastar a família inteira do Nordeste para o Rio, de bicicleta. Depois, no rosseauniano “O Homem Bom” (2008, a obra-prima do diretor), foi a vez de um professor de Literatura, especializado em Proust, que, em busca do tempo perdido da cultura europeia, não conseguia enxergar as cores mais sangrentas dos nazistas que rodeavam sua universidade e sua casa, sedentos por seu espírito. Em “Corações Sujos” (2011), a crença de que o Eixo teria derrotado os Aliados na II Guerra, levava colonos japoneses no Brasil a se digladiar contra o Estado Novo (e suas sequelas) num banditismo étnico e social mediado pelo sonho de um Japão onipotente. E em “Irmã Dulce” (2014), havia a loucura do fervor e do altruísmo a qualquer custo como foco para uma (inflamável) discussão sobre o poder social da Igreja. É um oceano de personagens míopes, presos na Caverna de Platão. Mesma caverna que o diretor foi buscar nas rochas de Minas Gerais, ao filmar “Motorrad” (2017) e narrar a travessia de moças e moços alheios à maldade que nos acossa em situações onde o determinismo e a evolução das espécies força a escolha do mais forte.

Percebe-se uma afirmação de força em “A Divisão” quando Mendonça brada: “Ou DAS ou desce”, com olho de Stallone Cobra, ao falar do combate a sequestradores. Se o crime é doença, a Divisão Antissequestro é cura. A seu lado, ele tem um fiel escudeiro de farda (vivido com olhos agudos por Marcello Gonçalves, ator que sempre se desenha na tela com elegância), mas também tem todo um exército de desafetos. É difícil ser Nick Nolte em terras sul-americanas, no ethos subtropical do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Com inteligência, o roteiro escrito por uma horda de criadores (Gustavo Bragança, José Luiz Magalhães, Rafael Spínola, Aurélio Aragão, Erik de Castro, Fernando Toste e Amorim) mostra que o resfolego que Mendonça passa não é uma exclusividade trágica.

Há outros em uma situação parecida, como o dublê de Hélio Luz (importante delegado e pensador de segurança pública dos anos 1990) Paulo Gaspar, vivido por Bruce Gomlevsky. Também não é das mais cômodas a situação de Benício, oficial carreirista vivido no limite da sordidez por Marcos Palmeira. E igualmente resfolegados estão os tais três coturnos sujos com quem Mendonça terá que trabalhar. Cada um representa uma virtude no maquiavelismo das operações policiais antissequestro: a inteligência logística cabe a Ramos (Thelmo Fernandes, hábil para ferver tensões); a manipulação cabe à Roberta (uma Natália Lage feroz, em seu melhor trabalho nas telas); e o devir Exu, de levar e trazer recados da bandidagem é mérito de Santiago, o popstar do time. Este é encarnado com som e fúria por um Erom Cordeiro fora das CNTPs da representação da malandragem, lembrando os melhores momentos de Power Boothe nos filmes de Walter Hill.

Ramos, Roberta e Santiago faziam do sequestro uma aposentadoria privada, um caixa dois. Só que a farra acabou… pra eles. Os donos da gaita agora são outros, como se vê na negociação de soltura da filha de um deputado. O filme se desenrola diante da operação empreendida por Mendonça, pactuado com o “trio ternura” de Santiago &; cia. Essa turma há de esbarrar com um ladrão profissional de cenas, Augusto Madeira. Com seu charme de Zé Pilintra, ele tem uma breve, mas essencial, entrada em cena, no filme, como um oráculo das dissonâncias legais da cidade. É sobre elas que Amorim se detém, para entender como surgiram os quebra-molas que entortaram a estrada da evolução social de uma das maiores metrópoles das Américas. Na edição, Danilo Lemos garante a ele uma montagem que administra com sabedoria cada núcleo de personagem, exponenciando o valor de cada combate. E Gustavo Hadba, em fase de apogeu em seu trabalho de fotógrafo, manuseia a câmera de modo a realçar a tensão das sequências de tiro e perseguição sem estetizar uma forma espetaculosa. A bestialidade da inadimplência de justiças na boa e velha Cidade Maravilhosa já é espetacular o suficiente para permitir uma concorrência. No RJ, as ruas de fogo de Walter Hill parecem fósforo queimado.

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