‘A Crônica Francesa’ brilha no Star+

‘A Crônica Francesa’ brilha no Star+

Rodrigo Fonseca

23 de fevereiro de 2022 | 11h54

RODRIGO FONSECA
Quem assina o Star + já pode se deliciar com “A Crônica Francesa” (“The French Dispatch”), o mais recente longa-metragem do texano Wes Anderson, que está finalizando “Asteroid City” de olho em Cannes, a ser realizado de 17 a 28 de maio. Exibida em telas estadunidenses em mostras em Nova York, Chicago e San Diego, a produção que celebra o histórico da imprensa em Paris e seus arredores deslanchou sua carreira internacional na Croisette, em julho, indo na sequência a San Sebastián, em setembro.
Desde “Três É Demais” (“Rushmore”, 1998), quando engatou um casamento profissional com Bill Murray e emprestou à comédia americana um estilo gráfico, na caracterização da mise-en-scène, o diretor de “A Vida Marinha de Steve Zissou” (2004) tornou-se um dos pilares de maior popularidade do cinema independente dos EUA. “O Grande Hotel Budapeste”, maior sucesso de bilheteria de sua carreira (custou US$ 25 milhões e arrecadou US$ 172 milhões), laureado com o Grande Prêmio do Júri da Berlinale, em 2014, pode ser superado com este seu novo exercício autoral. Murray está em cena, gaiato como sempre, no papel do editor de um prestigiado pasquim feito por jornalistas vindos de terras americanas, mas radicados na França. Em San Sebastián, a opinião generalizada foi: trata-se do trabalho mais requintado (e ousado) de Wes em suas experimentações formais, que evocam a estética frenética de Mack Sennett (1880-1960), realizador de “O Beijo de Despedida” (1928). Plasticamente estruturado nos moldes de uma revista ilustrada, em sua narrativa palavrosa, “A Crônica Francesa” opera com elementos de animação; tem gravuras e ilustrações por toda a sua extensão, de 1h48; tem um preto & branco depuradíssimo (na fotografia dionisíaca de Robert D. Yeoman) e tem Alexandre Desplat, um dos compositores mais disputados na atualidade, em sua trilha sonora. Parece um daqueles bons filmes europeus em episódios dos anos 1960, como “Ro.Go.Pa.G.” (1963) ou “Boccaccio ’70” (1962), só que pautado por uma unidade visual (na direção de arte sempre arrebatadora do cineasta, operacionalizada aqui pelo quarteto de artesões Matthieu Beutter, Loïc Chavanon, Stéphane Cressend e Kevin Timon Hill) e uma unidade temática, que, no caso, refere-se à glória do jornalismo autoral. A narrativa é estruturada como se fosse um exemplar da “The New Yorker Magazine”, editada pelo personagem de Bill Murray: o repórter Arthur Howitzer Jr. Sua marca é a frase: “Não chore na minha frente”. Howitzer é capaz de dizê-la nos momentos cruéis ou nas situações mais humanistas. Seu avesso ao pranto passa por um desdém em relação ao sentimentalismo passa pelo cuidado com a retidão no âmbito da construção da prática jornalística. O que deflagra a trama é a morte dele.

Quando Howitzer morre, seus colaboradores mais ativos no dia a dia do trabalho se reúnem para decidir os rumos da revista, numa espécie de reunião de pauta. Por lá estão figuras abiloladas como Alumna (Elisabeth Moss), que usa gráficos para calcular cada passo de uma cobertura jornalística, mesmo quando estes não são compatíveis com a reportagem; e como Herbsaint Sazerac (Owen Wilson), que usa sua bicicleta para percorrer Paris sem dar muita atenção a buracos. Cada episódio revisitado pelo conselho editorial é uma reportagem sobre um tema ligado à realidade da França, com destaque para a relação de um artista plástico assassino (Benicio Del Toro) e a guarda de sua cela (Léa Seydoux). O elenco é monumental, vitaminado por exercícios pontuais de ironia como os de Jeffrey Wright, impecável no papel de um jornalista flamboyant. É um dos melhores trabalhos do ator, que será visto como Comissário Gordon no esperado “The Batman”, em março que vem.
Em 2021, Wes comemorou os 20 anos do longa que atestou sua fama de ser um excepcional diretor de elencos GG: “Os Excêntricos Tenenbaums”, com Gene Hackman. Desse filmaço de 2001, Wes trouxe para “A Crônica Francesa” uma de suas divas: Anjelica Huston. É ela quem narra a epopeia dos repórteres que burlam as convenções da notícia em nome da exuberância do texto.

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