‘A Cordilheira’: tem Darín inédito na Looke

‘A Cordilheira’: tem Darín inédito na Looke

Rodrigo Fonseca

17 de abril de 2021 | 08h46

Ricardo Darín com o diretor Santiago Mitre nos bastidores de “A Cordilheira”

RODRIGO FONSECA
Lançada em Cannes, em 2017, na mostra Un Certain Regard, “A Cordilheira”, um frenético thriller político com Ricardo Darín orçado em US$ 6 milhões, visto por cerca de 640 mil pagantes no circuito argentino, foi esnobado pelas redes exibidoras brasileiras, mas encontrou um lar pra chamar de seu na streaminguesfera, ao clique de uma URL: a Looke. Indicada a 25 prêmios após sua passagem pela Croisette, a produção teve sessões na TV a cabo, por aqui, nos canais HBO, em 2018, por ter tido a Warner Bros. como parceira. Mas sala de cinema que é bom, por estas bandas, nada. Agora, habemus Looke, que vem sendo o atual QG do É Tudo Verdade, o maior festival de documentários das Américas cuja 26. edição chega ao fim neste domingo.
Quem dirige Darín em “La Cordillera” (título original) é Santiago Mitre, realizador dos aclamados “O estudante” (2011) e “Paulina” (2015). Agraciado com o troféu Platino (o Oscar da latinidade) de Melhor Trilha Sonora (coroando a excelência melódica de Alberto Iglesias), o filme – lançado na França com o título de “El presidente” – aborda um conclave de líderes políticos das Américas, tendo intrigas de corrupção e pecados afetivos pessoais em seus bastidores. “É uma lástima do ponto de vista ético para o nosso continente notar que todos nós da América Latina nos identificamos com a discussão da corrupção”, disse Darín ao P de Pop, em Cannes.

Em nenhum momento dos 114 febris minutos de “A Cordilheira” se fala o nome da Petrobras, mas é o petróleo brasileiro que serve de combustível às negociatas políticas retratadas neste enredo moral e cívico com Darín. O Brasil está representado na figura do presidente Oliveira Prete, vivido com uma ironia saborosa pelo ator Leonardo Franco, da série “Preamar”. Seu desempenho é um primor. Prete é o alvo e o inimigo de todos, menos do líder argentino, o atormentado Hernán Blanco – papel dado a Darín.

“Gosto dos bastidores humanos do Poder. Não costumo me rotular como um diretor político, pois meu foco está nas angústias, nos afetos, mas falar dos dramas de governo é fundamental para entendermos o mundo à nossa volta”, diz Mitre em entrevista por email ao Estadão. “Já se passou muito tempo desde que rodamos ‘La cordillera’, por isso temos agora uma outra América Latina diante de nós, com muitas crises, com transformações nos processos eleitorais, que trazem ecos da extrema direita em muitos lugares. De certa forma, os presidentes presentes na trama do filme debatem a criação de uma empresa multinacional de hidrocarburetos. Pactos, alianças e discussões são apresentados no longa, num debate sobre a conformação desse projeto e o quanto ele pode trazer de ganhos ilícitos para seus idealizadores e de ganhos concretos para o continente”

Roteirista de “Abutres” (2010), cult de Pablo Trapero com Darín em cena, Mitre chamou a nata das atrizes e atores das Américas hispânicas para o elenco, como os chilenos Paulina García (de “Glória”) e Alfredo Castro (de “O Clube”), a argentina Dolores Fonzi (de “Truman”) e o espanhol radicado em solo mexicano Daniel Giménez Cacho (de “Má Educação”), além do americano Christian Slater (“Mr. Robot”) e do brasileiro Leonardo Franco. Centrada nas crises morais na América do Sul, o enredo do longa põe Hernán Blanco (Darín) entre as disputas com o líder brasileiro e uma crise familiar ligada à saúde mental de sua filha (Dolores Fonzi). “Não existem salvadores. Existem esforços éticos individuais, de cada um de nós”, disse Darín. “Precisamos repensar o que a América Latina precisa para respirar além de suas crises, além de conflitos econômicos”.

Estima-se que o novo filme de Notre, “Petite Fleur”, vá pra Cannes este ano. Nele, Daniel Hendler vive um sujeito obcecado com a ideia de que seu vizinho é um inimigo, optando por assassiná-lo. O problema é que este renasce a cada dia, misteriosamente.

p.s.: Nestes momentos finais do É Tudo Verdade, dá uma olhada atenta em “Edna”, de Eryk Rocha. Nele, o realizador de “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016) arranha as franjas do lirismo, apoiado numa estonteante fotografia em P&B, embalado em uma canção de Paulo Sérgio (“Máquinas Humanas”). Apoiado numa narrativa híbrida, nas raias da rodovia Transbrasliana, o cineasta transita entre o real e o imaginário, por guerrilhas, desaparecimentos e desmatamentos, com foco no diário de uma mulher assolada por palavras e recordações regadas a sangue, algumas delas ligadas ao Araguaya.

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