‘A Cidade dos Piratas’: dever cívico

‘A Cidade dos Piratas’: dever cívico

Rodrigo Fonseca

31 de outubro de 2019 | 09h28

“Criadorxs” e criaturas: Laerte e Otto Guerra

RODRIGO FONSECA
Depois de muitas preliminares, das mais prazerosas, “A Cidade dos Piratas” enfim cai dentro… do circuito exibidor… aberto a todos os públicos, a partir desta quinta-feira, com tesão para prolongar sua estada nas telas. Com base nas HQs da cartunista Laerte e em memórias de seu realizador, Otto Guerra, de uma luta contra o câncer, o desenho animado – mais relevante de todos os lançamentos do setor animado nacional em 2019 – propõe uma reflexão sobre Deus, pátria e propriedade: três vértices da construção simbólica e moral do corpo. Marco Ricca e Matheus Nachtergaele estão no elenco de vozes do filme, que investiga o moralismo em um Brasil na qual um senhor de meia idade, cansado de hipocrisias, decide trans…cender. Leia, a seguir, as palavras de Guerra.
Qual é a interseção poética – e política – entre a obra de Laerte, Adão e Angeli, três áses do traço filmados por ti?
Otto Guerra:
Los Três Amigos têm em comum o humor não domesticado. Angeli e Adão transitam num mundo de fadas apocalípticas, nada se salva em seus universos, tudo é trágico e sem esperança alguma. Redimem-se pela graça e leveza. Adão, mais na acidez das piadas; Angeli, na estética aprimorada. Laerte, bem… Laerte transcendeu o plano que nós, meros humanos, habitamos. Ela tem uma ligação direta com o cosmos, com a alma coletiva que paira sobre o tempo e espaço. Antecipa o futuro breve de forma crítica, engraçada mas, sobretudo, poética. Ele disseca a hipocrisia, a ganância, a competição e a infelicidade que abunda nossa triste civilização movida a consumo, grana e falcatruas em geral.

O que “A Cidade dos Piratas” revela sobre a caretice nossa de cada dia? O que esse filme te ensinou sobre o Brasil?
Otto Guerra:
Em 2010, eu não entendia o que significava o personagem Azevedo, típico político enlouquecido, que armazenava seu ódio excedente em pequenos botijões. Visionária, Laerte previu o momento que vivemos no Brasil hoje. Famílias, amizades, parcerias esmagadas por um ódio recíproco avassalador. Por outro lado, sua homossexualidade assumida apenas aos 57 anos revela o tabu que era, e ainda é, a questão do gênero, vide nosso “presidente”. Laerte deu um grande passo escancarando sua luta contra os preconceitos as minorias todas e não só de gays.
Há chances de “Rocky e Hudson”, os teus caubóis gays, voltarem às telas, nestes dias de homofobia? Eles completam 25 anos de cinema em 2019: seu filme sobre eles é de 1994. O que eles te ensinaram, à época em que foram feitos?
Otto Guerra:
Adão Iturrusgarai criou essas personagens em 1988. O mundo era bem mais reprimido que hoje. Evoluímos, mas ainda falta muito chão pela frente. Jovens se suicidam ainda por não serem aceitos, às vezes, nem por eles mesmos. Pretendemos jogar uma luz sobre essa questão de forma cômica e leve. Fizemos uma série de 13 episódios do “Rocky & Hudson, os caubóis gays”, pro Canal Brasil, que entra na grade breve. O longa dos caubóis gays vai ser remasterizado e pretendo fazer um terceiro episódio, para se somar à metragem original, e lançar uma versão atualizada do filme.
E o que mais vem de novo pela Otto Dsenhos?
Otto Guerra:
Nossos atuais projetos pra cinema são: “O Filha da Puta”, que conta a história de um menino, filho da dona do bordel da cidade encravada no sertão de Minas, que parte atrás de conhecer seu pai. Outro longa, o primeiro projeto infantil da produtora, chama-se “Joe e o capitão da guarda”. Fala sobre uma menina de um reino quer ser o capitão e é ajudada por um fado gay. Por fim, tem o longa “Nem Doeu”, baseado no meu livro de falsas Memórias.

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