A casa da Alice Carla Ribas… é no streaming

A casa da Alice Carla Ribas… é no streaming

Rodrigo Fonseca

12 de junho de 2020 | 11h55

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Lá se vão 13 anos desde a passagem do furacão “A Casa de Alice” aqui pelo cinema brasileiro, soprado da Berlinale, a partir dos pulmões de uma força da Natureza chamada Carla Ribas, que hoje torna “Reality Z”, a série de mortos-vivos da Netflix, a maior diversão. Carrossel canibal, o projeto de Claudio Torres carrega a marca autoral de crônica social que o caracterizou em “O Redentor” (2014) e em “Diabólica”, seu episódio do longa rodriguiano “Traição” (1998), sendo que há uma linha cronista também em sua “Magnífica 70”. Sua estética à la Edvard Munch é perfeita para traduzir o estado de “Grito” que vivemos no país, encontrando em Carla (numa atuação devastadora) a medida de equilíbrio entre George A. Romero e Andrzej Zulawski. Se o seriado da grande N – sobre um ataque zumbi a um RJ com pinta de Zona Sul – esboça um tônus de “Madrugada dos Mortos”, Carla, no papel de Ana (idealizadora do projeto de reality show no qual a narrativa se concentra), lembra a Isabelle Adjani na “Possessão” de Zulawski. Imersa em ansiolíticos, avessa à hecatombe à sua volta, ela é forçada pelo filho, Léo (o ótimo Ravel Andrade), a sair da inércia e brigar pela sua sobrevivência, refugiando-se no Olimpo, a sede de um “Truman Show” inspirado em mitos gregos. Carla trafegou pelos palcos e séries nos últimos 13 anos colecionando interpretações sempre mediadas pela ruína, como se viu na peça “Folhas de Vidro” e no estonteante filme “Campo Grande” (2015). As ruínas aqui passam pela cartilha de gênero… no caso, um filão sobre o qual Torres e Rodrigo Monte, ambos na direção, demonstram arguto domínio técnico, mesmo quicando em alguns quebra-molas de verossimilhança. E Carla se integra a essas tais ruínas com uma elegância que injeta drama afetivo a uma pista de Hot Wheels serializada. Ana Hartmann, com timbre de protagonista no papel de Nina, sai dessa pista soberana, como uma das revelações do ano, remetendo a gente ao olhar vítreo de Milla Jovovich na franquia “Resident Evil” (2002 -2017), sempre galvanizada pela estamina humana chamada João Pedro Zappa. Destaca-se também Luellem de Castro, no papel da videomaker Teresa. O astro de “Gabriel e a Montanha” (2017) é o rim que promove a hemodiálise amorosa e humanista deste “Quadrilha de Sádicos” versão cadáver, no qual Guilherme Weber descasca, com a inteligência que lhe é peculiar, o abacaxi da vilania, dando alma, suor e pulso a um diretor prepotente e escatológico. Sua atuação, na raias do humor, leva a maldade a um lugar de humanidade, de fragilidade, de vida. O mesmo lugar onde Carla, uma atriz com A maiúsculo, esculpe a tridimensionalidade de sua Ana.

p.s.: Afinada com a urgente necessidade de se erradicar o racismo, a Globo escala o genial Idris Elba como destaque de sua madrugada: às 3h10 rola “Mandela: O Caminho Para a Liberdade” (“Long Walk to Freedom”, 2013), do inglês Justin Chadwick. É um dos muitos trabalhos que deveriam ter levado o genial ator britânico de 47 anos ao Oscar. A biopic escalada pela Globo relembra o percurso de Nelson Mandela desde a sua infância, em um meio rural, até a eleição democrática ao cargo de presidente da África do Sul, combatendo o apartheid. Marco Antônio Abreu dubla Elba no longa, que também será exibido no Globoplay.

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