A ‘Califórnia’ das nossas saudades

A ‘Califórnia’ das nossas saudades

Rodrigo Fonseca

01 de agosto de 2020 | 13h20

Rodrigo Fonseca
É sempre uma delícia rever “Califórnia” e ver a pluralidade de Marina Person como artista audiovisual, de VJ da MTV a documentarista, de atriz a diretora de um (belíssimo) filme de ficção. Sabe aquela lógica de Sessão da Tarde, de filme gostoso, quentinho, pra ver, ver, ver e rever? Pois bem, essa joia de 2015 é a versão brasileira disso, marcando a estreia da Marina como realizadora de longas ficcionais. Nesta madrugada, lá pelas 3h30, a TV Globo vai exibir este drama de amor no seu Corujão. Lá fora, a produção brilhou nos festivais de Roterdã, na Holanda, e de Tribeca, em Nova York, tendo sido bem elogiado em ambos.

Segundo a geografia de afetos cartografada por Marina, a Califórnia fica logo ali. Mas esse “ali” não quer dizer um perímetro físico, demarcado no mapa dos EUA, e sim uma área emotiva – às vezes doída, às vezes chapada – no imaginário da gente, não importa a idade. Nela residem sonhos de conquista da liberdade do querer, ao explorar a imensidão de um mundo celebrizado pelo cinema e pelas séries de TV. Ao lado desses sonhos audiovisuais, moram músicas – aquelas das boas, tipo The Cure e cia. – que embalam perdas de diferentes virgindades: a de beijos na boca, a da transa inaugural, a da inocência frente às decepções que o verbo “amadurecer” nos apronta. Essa Califórnia virou filme. Algo que quem nunca viu o longa “Person” – um doce documentário dirigido por Marina em 2007, sobre seu pai, Luís Sérgio, diretor do clássico “São Paulo S/A” – chamaria de um filme-casulo. Por quê? Porque Marina entrou nele ainda um pouco VJ e saiu cineasta. Cineasta com “C”, com a maturidade do risco e a sabedoria de fazer da delicadeza seu norte.

Entre imperfeições e belezuras, acertos e falhas, “Califórnia” se equilibra como um filme de estreia elegante: suas ambições narrativas são de fôlego curto, mas seu poder de comunicabilidade é farto, pelas veredas da doçura, com o açúcar Ploc da década de 1980. É sobre ela que o longa fala. Ou melhor, é, a partir dela, que o longa fala, a fim de retratar o desaguar das expectativas da adolescente Estela (a.k.a. Teca) num mar de sabores e dissabores… aqueles que só se vivem aos 17 aninhos. É essa a idade que Teca tem em 1984, quando espera a viagem aos Estados Unidos prometida desde 1982, quando abriu mão de sua festinha de debutante. Detalhe importante: Teca revela ao cinema Clara Gallo, jovem atriz com fome de atuar bem. Seu desempenho é intenso, sem jamais resvalar nas caricaturas da aborrescência. E ela comprovou seu vigor e sua seriedade na recente série “Todxs Nós”, da HBO.

Para Teca, a meta do futuro é viajar América adentro para conhecer o lado Norte do Novo Mundo ao lado de seu tio (e super-herói) Carlos, um jornalista especializado em rock vivido por Caio Blat, um dos nossos gigantes. Enquanto o passeio esperado não chega, a mocinha encara o colégio, dividida entre cochichos com as melhores amigas e flertes com o aspirante a surfista Xande (Giovanni Gallo). Nesse período, chega ao colégio, por transferência, um aluno novo, de visual à la Tim Burton, de quem nada se sabe e tudo se especula (sobretudo sua orientação sexual): JM, papel confiado ao surpreendente Caio Horowicz. Ele levou o Troféu Redentor de Melhor Coadjuvante no Festival do Rio 2015, onde o longa fez sua estreia. Além dele, o elenco cresce com a entrada da (sempre notável) atriz Gilda Nomacce (a melhor de sua geração) na pele de uma empregada doméstica.
Destaca-se ainda um nutriente a mais, capaz de fazer o filme crescer: a fotografia de Flora Dias, sempre numa paleta de cores que nunca berra, mas captura o olhar. A fusão de imagens de arquivo e encenações também é rica, criando terreno para um resgate de tempo capaz de deixar Marina refletir sobre a eclosão da Aids e o alvorecer do B-Rock. É uma reflexão capaz de emocionar a plateia, sem arroubos de invenção, mas com ternura, sobretudo quando toca “The Caterpillar”, na voz de Robert Smith para “curar” nossas ressacas, sobretudo a descrença no poder regenerativo do verbo “amar”.

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