A boniteza documental de Angela Zoé

A boniteza documental de Angela Zoé

Rodrigo Fonseca

15 de fevereiro de 2021 | 15h22

Rodrigo Fonseca
Define-se Alcione, ou pelo menos a persona musical da cantora, muito bem com 11 versos:
“Qualquer dia desses
Não vou mais ficar nessa cama de bruços
Chorando sozinha, abafando soluços
Lembrando das coisas que eu nunca esqueci
Qualquer dia desses
Esqueço os conselhos e jogo pesado
Querendo teu corpo de novo ao meu lado
As leis do bom senso eu vou desafiar
De nada adianta tanto sofrimento se a pura verdade
É que nesse momento eu morro de saudade
Com tudo que o orgulho não pode apagar”

Rola pela web uma gravação dela, no programa da Hebe Camargo, cantando o supracitado poema ultrarromântico de Reginaldo Bessa, numa canja em seu trompete. Pra quem passou por um leque aberto de ritmos e estilos musicais – em sua coluna no G1, o crítico Mauro Ferreira cita “MPB, bolero, música francesa, samba-canção, standards norte-americanos e até samba” ao classificar a extensão rítmica dela -, a estrofe de Bessa é uma porta aberta, mas não é tudo. Mas é uma porta que nos escancara o transbordamento do cancioneiro romântico nacional. O mesmo pode se dizer do precioso filme “Alcione – O Samba É Primo Do Jazz”, hoje em circuito, após ter passado pelo crivo do Festival de Gramado, em setembro. É quase um haicai sobre a construção de uma carreira musical que aposta no volume de uma voz grave e num carisma sem precedentes. É um filme da mais refinada boniteza.
Pelas ruas de Portugal, ao cruzar com um sujeito bonitão que, em nenhum momento entra em quadro no saborosíssimo .doc “Alcione – O Samba É Primo Do Jazz”, a loba rainha da música de amor no Brasil, refere-se toda gulosa a ele como sendo “um Kevin Costner”. É uma referência cinéfila à personagem de Whitney Houston em “O Guarda-Costas” (1992) um dos romances mais consumidos pela cultura pop da década de 1990 pra cá. A tirada é uma “fábula de apresentação” precisa para o tipo de narrativa que a documentarista Angela Zoé virá a construir nos 70 minutos que tem nas mãos. É precisa por ser um mero detalhe do viver, por ser quase um colorido alegórico da cantora maranhense que é seguida atentamente pelas câmeras da realizadora de “Henfil” (2017), e não uma revelação crucial de sua passagem pela História. Aliás, não há muito das convenções da biopic (termo cinematográfico para qualificar o filão do registro biográfico) no filme de La Zoé, que parece preferir a parte ao todo. Metonímias resolvem o longa-metragem.

Em um dado momento, uma evocação paterna a Xangô e materna a Iansã já dá conta da espiritualidade de Alcione. A frase “Quando a gente dorme numa cama King Size, atravessada, é difícil querer alguém dormindo com a gente” já ilustra a parte afetiva da diva da voz, que admite “eu gosto de paixão, de amar com força”. E a expressão “dizer pra Alcione ‘você tem que’, danou-se” já resume a relação dela com imposições. Não há muito mais a ser dizer. Não que não haja, afinal, diante de uma trajetória iniciada em 1968 – quando ela deixa São Luís pra tentar a sorte no Rio, cantando na noite – o que não faltam são peripécias. Mas a estrutura dramática armada por Zoé, na montagem azeitada de Nina Galanternick, não se preocupa em ser totalizante, nem didática, avançando, etapa a etapa, show a show, na vida de Alcione. Tem uma viagem em Portugal, tem um show a ser apresentado em São Luís e tem um ensaio com sua orquestra. Pronto. Ali pode não estar a inteireza de Alcione, mas ali está O FILME, com uma potência avassaladora em sua precisão. Potência essa que lembra o estilo rizomático da documentarista nova-iorquina Shirley Clarke (1919-1997) – um dos pilares da não ficção nos EUA – em seu “Ornette: Made in America” (1985) e na ironia de “Portrait of Jackson” (1967). Zoé filma o Brasil de hoje como Shriley filmava a América dos anos 1950 a 80: no ponto, sem firulas, no lead de cada desabafo de seus personagens. É ela como fez no tocante “Meu Nome É Jacque” (2017). Só que Zoé conta, aqui, com a maturação de seu próprio fazer e com os enquadramentos sem arestas do fotógrafo Luís Abramo (de “Proibido Proibir”). É bonito ver sua evolução entre as/os grandes diretoras/es de documentário do Brasil. Seu lugar está em movimento, para o alto. E avante.

p.s.: Com atrações plurais que traçam um panorama do teatro contemporâneo, o Festival Niterói em Cena é realizado há 12 anos no município fluminense, com uma seleção de espetáculos regionais, nacionais e internacionais de grupos consagrados e iniciantes. Devido à pandemia, o evento chegou à sua 13ª edição em formato virtual, com primeira etapa realizada em dezembro. A segunda etapa, com atrações internacionais e nacionais, será realizada de 18 a 24 de fevereiro, com 16 montagens para adultos e crianças da Alemanha, Nigéria, Moçambique, País Basco, Espanha, Itália e do Brasil, que serão transmitidas pelo Zoom com ingressos gratuitos. Na abertura do evento, haverá um encontro com o diretor Gerald Thomas, que falará sobre sua trajetória, novos projetos e o teatro atual. O evento contará também com atividades formativas, como oficinas ministradas por Moacir Chaves, Chico Pelúcio, do Grupo Galpão, e Simone Kalil, entre outras ações. Mais informações em www.niteroiemcena.com.br.

p.s.2: O ciclo virtual de palestras “Lab Corpo Palavra” reúne, até 3 de março, artistas e pesquisadores da dança, das escritas, das artes cênicas e dos estudos do corpo no canal do Youtube Celeiro Moebius (https://bit.ly/3q9zULp). A proposta é conversar sobre os pensamentos e práticas que envolvem a dança contemporânea na relação entre o corpo e a palavra. Nesta quinta-feira, dia 18/02, às 14h, a convidada é a bailarina e pesquisadora Maria Alice Poppe, cujo trabalho investiga as relações poético-políticas entre corpo, chão, peso, gravidade e queda em uma perspectiva híbrida de gesto e pensamento. As palestras ficam disponíveis no canal após o evento.

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