A elegância de Hou Hsiao-Hsien em streaming

A elegância de Hou Hsiao-Hsien em streaming

Rodrigo Fonseca

30 de abril de 2020 | 12h06

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Motivos para desfrutar da fama de ser um dos mais exuberantes cineastas em atividade não faltam ao taiwanês Hou Hsiao-Hsien (também conhecido pela abreviação HHH), que, aos 73 anos, volta à direção com “Shulan River”, após um hiato iniciado em 2015, quando ficou se dedicando apenas à produção. De seu currículo constam um Leão de Ouro – conquistado no Festival de Veneza de 1989, por “A Cidade do Desencanto” –, o Grande Prêmio do Júri de Cannes – dado a ele por “Mestre das Marionetes”, em 1993 –, o Prêmio da Crítica da Berlinale, votado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) – conferido a “Um Tempo para Viver, um Tempo para Morrer”, em 1985 – e mais umas 58 láureas. De uma delicadeza singular na construção de planos, sobretudo no uso sinestésico das cores, ele foi ovacionado na Croisette, há cinco anos, ao ser eleito (pelo júri presidido pelos irmãos Coen) o melhor diretor da competição oficial com “A Assassina” (“Ci Ke Nie Yin Niang” no original), inusitada incursão dele pela seara épica dos wuxia, filão capa e espada ocidental, majoritariamente de origem chinesa, no qual guerreiros marciais usam suas habilidades em batalhas nas raias do fantástico. Nestes dias de 40ena, esta joia encontra um lar pomposo na web, no streaming Globoplay. Em paralelo, o filme – centrado na saga de uma matadora de aluguel na China do século nove – se impõe como um dos títulos de maior destaque do empório eletrônico da Imovision: www.loja.imovision.com.br.
“O wuxia é um gênero muito forte na Ásia, que marcou o meu olhar de adolescente, mesmo sendo algo, aparentemente muito distinto do tipo de narrativa mais próxima do drama que eu fazia. Mas existe nesse filão um desafio ao realismo, ao mesmo tempo em que encontramos uma dimensão fabular e uma vertente épica. É desafiador estabelecer uma leitura realista para as sequências de ação em um contexto de passado que parece mágico, mas nos quais se encontra toda a dinâmica de poder que ainda rege nossas relações sociais”, disse Hsiao-Hsien ao P de Pop em Cannes. “O quadro que eu tento construir aqui tem como foco o universo feminino e sua verdade em meio a uma realidade de muita contradição política na China”.

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Elogiado por jornais como “Le Monde” como sendo uma aula de cinema, “A Assassina” narra uma missão da matadora Yinniang (Shu Qi), que caiu em desgraça diante de seus patrões após ter falhado na tarefa de matar um aristocrata, apiedada dele ao vê-lo com um bebê no colo. Para recuperar sua honra, ela deve cruzar o país e matar seu primo, por quem ela é apaixonada há tempos. O dilema entre o dever e o desejo norteia a narrativa, marcada por sequências de batalha de tirar o fôlego, com toda a sorte de armas orientais. “Existe na personagem a angústia de saber escolher um caminho preciso, na vida e na profissão”, disse Hsiao-Hsien.

Longe dos longas desde “A Viagem do Balão Vermelho” (2007), Hsiao-Hsien voltou ao formato brincando com a percepção sensorial da plateia. Ele começa o longa em preto e branco, inspirado em parte pela memória dos longas sobre lutadores de kung-fu que viu quando jovem, adicionando cor a seu longa no momento em que estamos afinados com a inquietação interna de Yinniang. A porção colorida investe ainda mais numa percepção poética da fragilidade humana. “No cinema, cor é uma medida da crueldade quando a narrativa se filia na tradição da violência. Suspendendo o colorido, ainda que momentaneamente, eu diluo a brutalidade. Essa é uma percepção que vem de uma aptidão que tenho para as artes plásticas, desde jovem quando descobri a pintura”, disse Hsiao-Hsien. “Tenho muita vontade de fazer mais um filme de artes marciais para ter a certeza de que consigo dominar o gênero. Estava acostumado a fazer filmes muito simples, baratos em quesitos de produção, mas aqui, como se trata de uma reconstituição histórica, era necessário uma verba maior (custou cerca de US$ 14 milhões ). O desfio aqui é não deixar a imagem se render à pobreza estética que nos assombra”.

p.s.: Poucas cinematografias mundiais apostaram tanto na promoção de suas produções locais, nestes dias de 40ena, quanto a indústria francesa, a se julgar pela campanha fomentada online pela Unifrance, ao expandir o evento virtual My French Film Festival Stay Homem Edition, iniciado em março, até 25 de maio. Onde rola: basta digitar myfrenchfilmfestival.com para se deliciar com um mar de curtas da terra de Truffaut (sane, né: nos menores frascos…) e ótimos longas como “Não Sou Um Canalha” (“Je ne suis pas un salaud”), de Emmanuel Finkiel; “Os Últimos Parisienses” (“Les Derniers Parisiens”), com Reda Kateb; e “A Excêntrica Família de Gaspard” (“Gaspard va au marriage”), de Antony Cordier.

#Globoplay #HHH #HouHsiaoHsien #AAssassina #CiKeNieYinNiang

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