‘A Assassina’: a poesia marcial de Hou Hsiao-Hsien na TV

‘A Assassina’: a poesia marcial de Hou Hsiao-Hsien na TV

Rodrigo Fonseca

27 Abril 2017 | 01h37

 

 

O clima de ação reina sobre a narrativa criada pelo mestre taiwanês em “A Assassina”: de Cannes ao Telecine

RODRIGO FONSECA

Às 23h59 desta quinta-feira, ligue a TV no Telecine Cult para poder conferir mais uma lição de cinema (e de reflexão sobre finitude) de Hou Hsiao-Hsien: o épico intimista A Assassina (Nie Yin Niang). O filme dele ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 2015, por sua exuberâncina narrativa.

 

Tempo e alma parecem substantivos sinônimos nos filmes de Hou Hsiao-Hsien desde A Grama Verde de Casa (1982), quando o ambiente escolar parecia alimentar nos seus personagens uma certa sensação de juventude perene, uma pertença contínua a uma fase na qual as descobertas sensoriais são mais possantes do que os deveres. Pareceu, portanto um desafio para o cineasta taiwanês de origem chinesa, na sabedoria de seus 70 anos, transpor essa visão metafísica sobre o espírito humano para um período histórico mais ancestral (o século IX) e para um formato de gênero bem demarcado: no caso, a cartilha das artes marciais. Essa transposição tem nome: A Assassina, um thriller capa & espada, eleito um dos melhores filmes do ano retrasado. Aclamado mundialmente por dramas de tintas existenciais como Poeira no Vento (1986) e Café Lumière (2003), Hsiao-Hsien aqui apela para a violência numa operação desconstrutiva para isolá-la de sua brutalidade essencial, retratando socos e chutes com uma poesia visual rara, digna da pintura chinesa.

 

“Vivemos hoje um tempo em que Hollywood reina soberana nas salas de exibição, ao contrário do que eu vi nos anos 1960, quando comecei a estudar, e havia uma leva autoral, chamada de cinemanovismo, do qual saiu a Nouvelle Vague francesa, a partir da qual os longas traziam radicalidade em seu olhar sobre o mundo”, lembrou Hsiao-Hsien em entrevista ao P de Pop lá de Cannes. “De alguma forma, eu sigo a filmar com a esperança de que os filmes não se rendam à pobreza estética. Por isso, abrir brechas para riscos como encarar gêneros que já alcançaram fôrmas bem estabelecidas”.

 

Coalhada de adrenalina, A Assassina narra a saga de uma matadora de aluguel com sequências de ação capazes de superar as de O Tigre e o Dragão (2000), considerado um marco do gênero.

 

“Minha inquietação maior aqui era explorar o universo feminino enquadrado a partir de um ambiente de muita contradição política. Viajamos no Tempo até uma China em ebulição, na qual a literatura e as artes plásticas abriam espaço para a fabulação. É um país de muitas cores, que eu tento buscar num certo trecho da minha narrativa”, disse o diretor, que, num gesto contraditório à primeira vista, optou pelo preto e branco no trecho inicial de seu mais recente longa-metragem. “A questão do preto e branco foi quase instintiva para mim, numa reação à violência: estava narrando a história de uma mulher cuja profissão é matar, o que, em si, já me soa assustador. Tirar a cor foi uma forma de diluir a crueldade. Mas a cores entram na hora que ela precisa decidir um caminho, decidir que rumos tomar em relação à tarefa de matar”.

 

Alguns dos mais prestigiados jornais europeus abriram páginas inteiras para elogiar A Assassina na Croisette. Sua trama se concentra numa missão da matadora Yinniang (Shu Qi), que caiu em desgraça diante de seus patrões após ter falhado na tarefa de matar um aristocrata, apiedada dele ao vê-lo com um bebê no colo. Para recuperar sua honra, ela deve cruzar o país e matar seu primo, por quem ela é apaixonada há tempos. O dilema entre o dever e o desejo norteia a narrativa, marcada por sequências de batalha de tirar o fôlego, com toda a sorte de armas orientais.

 

“Há uma complexidade central para encarar esse filão, quando não se é experiente nele: proteger os atores, que podem sair machucados se não forem experts em luta. Eu passei por essa situação com as minhas atrizes, pois elas terminaram as filmagens com uma série de ferimentos”, explicou o diretor, que usou a referência dos filmes de samurai do Japão. “Eu me impressiono com a tradição japonesa dos épicos marciais até hoje pela habilidade com que os diretores administram o realismo na condução e na captação das lutas. Se você não crer na habilidade de um guerreiro em manusear a espada na tela, você perde todo o coeficiente de verossimilhança da trama e perde o coeficiente trágico do que é narrado. Meu cuidado era preservar esse realismo da tradição sem perder o que eu buscava fazer: uma reflexão universal sobre a angústia de escolher um caminho, na vida e na profissão”.

 

Laureado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1989 por A Cidade do Desencanto e ganhador do Grande Prêmio do Júri em Cannes por Mestre das Marionetes em 1993, Hsiao-Hsien passou oito anos sem lançar longas, dedicando-se à direção do Festival de Taipei, em Taiwan, onde vive desde garoto. Nos fim dos anos 1980, ele foi considerado pelos pesquisadores da linguagem cinematográfico uma das maiores promessas para a renovação da arte de fazer filmes. A julgar pelas resenhas publicadas sobre o périplo marcial Yinniang, seu trabalho mais recente é um exercício de excelência visual.
“Tenho muita vontade de fazer mais um filme de artes marciais para ter a certeza de que consigo dominar o gênero”, diz Hsiao-Hsien. “Estava acostumado a fazer filmes muito simples e baratos em quesitos de produção, mas aqui, como se trata de uma reconstituição histórica, era necessário uma verba maior. Dependo do sucesso da aventura de Yinniang para saber se consigo filmar de novo nessa ambientação. Mas, tenho a sensação que é possível, pois criei um público fiel ao longo do tempo”.