A arte de ser Apatow

A arte de ser Apatow

Rodrigo Fonseca

16 de junho de 2020 | 10h39

Marisa Tomei e Pete Davidson são mãe e filho doidão em “The King of Staten Island”

Rodrigo Fonseca
Em paralelo à consagração mundial de “Destacamento Blood”, de Spike Lee, na Netflix, um outro filme, lançado no planisfério do streaming, torna-se um fenômeno digital e coleciona os elogios da web, nas mais variadas latitudes: “The King of Staten Island”, novo exercício autoral de Judd Apatow. No Brasil, o título estimado dessa produção americana – escolhida como atração de abertura do Festival de Tribeca – é “A Arte de Ser Adulto” (o IMDB fala “O Rei de Staten Island”). Já se fala em indicações ao Oscar para o roteiro (escrito por Apatow, Dave Sirus e Pete Davidson, sendo este o protagonista) e para o desempenho de Marisa Tomei e de Bill Burr. Fala-se, pela internet afora, que se trata de uma das comédias mais inteligentes desta década, com toda a delicadeza do realizador de “Ligeiramente Grávidos” (2007), vitaminado por um elenco em estado de graça. A narrativa é baseada nas memórias de Davidson, uma das sensações do “Saturday Night Live”, com base na ausência de seu pai, um bombeiro morto no 11 de Setembro. No longa-metragem, ele vive o aspirante a tatuador Scott Carlin, maconheiro profissional que é obrigado a crescer a fórceps, depois que a mãe, a enfermeira Margie (papel de Marisa), viúva de um soldado do fogo, apaixona-se por um outro homem. Este, o severo Ray (Burr), também é bombeiro, o que irrita Scott. O namoro de Margie vem na esteira de uma (meia) síndrome de ninho vazio, provocada pela saída de sua caçula, a jovem Claire (Maude Apatow, filha de Judd), que passou para a universidade. Pelo que se comenta lá fora, Burr está em estado de graça e a narrativa tem um tom de crônica geracional.
“Um dia, tomei um pé na bunda daqueles que destroem a nossa alma e, sem consolo, fui parar num cinema, para tentar aliviar a angústia, e escolhi, sem querer, uma comédia. Ri tanto, mas tanto que não consegui mais dar valor à minha dor. Curiosamente, a indústria do cinema tem uma tendência a dar valor demais à dor e valor de menos ao riso. Costuma haver um respeito maior das premiações, como o Oscar, por aquilo que dói e não por aquilo que extirpa a dor, mas que nos leva a compreender os desacertos do mundo. O ‘aquilo’ se chama comédia e é o que eu faço, filmando com uma cabeça de produtor: ou seja, rodando tudo rápido, barato e com amigos no set”, disse Apatow ao P de Pop numa entrevista às vésperas da estreia nos EUA de “This is 40”, lançado em 2012. “Meu interesse é falar dos pequenos sofrimentos que todo mundo tem, mas com uma leveza que trouxe de Hal Ashby, de Woody Allen, de Mel Brooks. Riso é alívio e é verdade”.

Estandarte do riso agridoce no audiovisual americano, com séries como “Love”, “Girls” e “Freaks & Geeks”, Apatow volta agora à direção, depois de um hiato de quase cinco anos. “Descompensada” (“Trainwreck”, 2015), um sucesso de bilheteria com Amy Schumer, que custou US$ 35 milhões e faturou US$ 140 milhões, foi seu último trabalho como diretor, na telona. “A receita que eu levo para a comédia é sintonizar o riso ao fracasso, o meu e o dos outros”, disse o cineasta, que amargou a rejeição do público quando lançou o que poderia ser sua obra-prima, “Tá Rindo Do Quê?” (“Funny People”, 2009), com seu amigo Adam Sandler e seu parceiro fiel, Seth Rogen. Ali, ele passou a léguas do êxito que teve ao rodar “O Virgem de 40 Anos” (“The 40 Year Old Virgin”, 2005), transformando Steve Carell numa celebridade. Mas “The King of Staten Island” promete ser a obra-prima dele.

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