‘A Aparição’ do melhor da França no Varilux

‘A Aparição’ do melhor da França no Varilux

Rodrigo Fonseca

16 de maio de 2020 | 17h43

Rodrigo Fonseca
Realizador do magnífico “Quand j’étais chanteur” (“Quando estou amando”, 2006), Xavier Giannoli, hoje envolvido com uma ambiciosa adaptação para as telas de “A Comédia Humana”, de Balzac, surpreendeu o Festival de Moscou, em 2018, com uma reflexão sobre fé nas franjas do mistério: “L’Apparition”. Já exibido em solo brasileiro, com um título de tradução literal, “A Aparição”, este drama metafísico nas raias do suspense é um dos destaques do Festival Varilux em Casa, online. Apoiada no carisma de Vincent Lindon, o Antônio Fagundes da França, conhecido aqui por cults como “Bastardos” (2012) e “O Valor de um Homem” (2015), esta trama foi filmada com um orçamento de € 5 milhões, centrada nos bastidores do clero. O roteiro narra os esforços de um renomado jornalista para quebrar um galho (pra lá de espinhoso) do Vaticano: checar se é verdade a história de uma jovem que acredita ter visto a Virgem Maria. A visão pode ser loucura ou pode ser um alumbramento divino.
“A dimensão política mais forte que o cinema tem está em seu incômodo contra o abuso que se comete contra a sociedade, sobretudo entre as instituições do Poder. A militância partidária virou religião e a fé virou uma convenção política, nestes tempos de fake news. Mas é preciso enxergar o que existe de mais humano nessa fé”, disse Lindon ao P de Pop em Cannes, em 2018. “O silêncio é o melhor caminho de trilhar a linha da dúvida, da indignação”.

Em “A Aparição”, o ator de 60 anos encarna a síntese da dúvida e da inquietação. Acusado de questionar o papel social da religião, o filme de Giannoli ainda põe em xeque a prática do jornalismo nos dias de hoje. Deus nunca é questionado. Mas se questiona a comoção pública do milagre ou da vidência, explorados como sensacionalismo pela mídia. A referência ao cult “Agnes de Deus” (1985), de Norman Jewison, é total.
“O papel da arte é provocar para iluminar”, disse Lindon. “Iluminação é transcendência”.
Confira o melhor do cinema francês em www.festivalvariluxemcasa.com.br. Tá cheio de filmaço lá.

p.s.: Maior achado de “Holmes & Watson” (2018), Lauren Lapkus espana o politicamente correto pra debaixo do tapete em “A Missy Errada” (“The Worng Missy”), comédiaça de Tyler Spindel que foi a sensação da semana no streaming. Produzido por Adam Sandler, o longa põe Lauren como uma empoderadíssima generalista em toda a sorte de práticas médicas que vive um romance com um solteirão (Dave Spade) cheio de enguiços afetivos. Durante uma visita a um resort havaiano, a moça vai aprontar de todas, desafiando a caretice de seu possível amor e dos colegas de trabalho dele.

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