A ‘Alexanderplatz’ de Fassbinder tem casa nova

A ‘Alexanderplatz’ de Fassbinder tem casa nova

Rodrigo Fonseca

12 de maio de 2021 | 08h57

Fassbinder nos sets de “Berlin Alexanderplatz”, exibida em 1980, com produção da Bavaria Film

Rodrigo Fonseca
Enquanto “Enfant Terrible”, de Oskar Roehler, sobre o legado criativo do cineasta Rainer Werner Fassbinder (1945–1982) não estreia por aqui, a streaminguesfera nos oferece uma boa chance de matar saudades do realizador de “Lili Marlene” (1981) com a inclusão da minissérie “BERLIN ALEXANDERPLATZ” (1980) no Reserva Imovision. Sua trama se passa na Berlim de 1928, uma cidade mergulhada no caos pós-Tratado de Versalhes. O personagem principal é Franz (Günter Lamprecht), que sai da prisão depois de cumprir pena por matar a namorada. A base do enredo é o romance que Bruno Alfred Döblin (1878-1957) publicou em 1929, ainda sob o trauma da I Guerra. Há um ano, o livro de Döblin foi adaptado de novo, agora por Burhan Qurbani, cineasta origem afegã radicado na indústria audiovisual europeia, conhecido aqui por “Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes” (2014). Sua versão pode ser encontrada no https://www.filmelier.com/ pois entrou em plataformas como a Now, a Apple e a Vivo Play.

Em 1931, o sucesso editorial de Döblin gerou uma adaptação para as telas dirigida por Phil Jutzi (1896–1946). Na sequência veio a de Fassbinder, que se consagrou como um marco do hibridismo entre as narrativas de teledramaturgia e cinema. Influenciado pelo ethos de Fassbinder, mas capaz de criar um léxico próprio, Qurbani tentou, no projeto de 2020, uma leitura queer dos códigos de lealdade na sociedade contemporânea, trafegando para além dos rótulos que a intolerância sexual insiste em alimentar, sobretudo numa Europa atada aos grilhões do racismo. Döblin serve a ele como um instrumento para discutir o que teóricos brasileiros como o geógrafo e doutor em Sociologia da Educação Jailson de Souza (nas páginas de “A Favela Reinventa a Cidade”) chamam de “estratégias de redes”, ou seja, cooperações como meios de subsistência e de potencialização das populações periféricas. A evocação da obra de Jailson vem da relevância da geografia como um saber humanista e do fato de que o Franz de Döblin aqui vira um imigrante africano desterritorializado, “incluindo” no território simbólico do Velho Mundo a partir de sua vivência de periferia. Ovacionado em sua passagem pela disputa pelo Urso de Ouro do ano passado, a “Berlim Alexanderplatz” de Qurbani é um inventário das cicatrizes das vidas que gravitam pelas margens de uma Alemanha eurocêntrica, ainda quizilada pelo espectro do neonazismo.

Sua projeção na Berlinale, há cerca de um ano, comoveu em especial pela catártica atuação de Welket Bungué, astro egresso da Guiné-Bissau. Franz será vivido por ele, nas franjas trágicas de uma narrativa de educação sentimental pela pedra. A partir do desempenho dele, discute-se uma certa noção de imobilidade social no tráfego geográfico por um espaço urbano de violência. “É difícil se livrar do Diabo depois que a gente deixa ele entrar”, comenta-se, em uma cena do filme de Qurbani, num indicativo do clima mefistofélico que cerca Franz. Aqui, esse imigrante d’África precisa apelar para o crime para alimentar o sonho de dignidade que acalenta. Avesso a toques invasivos em seu corpo, ele negocia a alma em sua jornada em prol de se afirmar não como um corpo estranho em um país estrangeiro, mas como parte dessa Europa ainda xenófoba que hostiliza seus passos. Numa sequência hipnótica, ele grita: “Eu tenho nome alemão!” para seus adversários, em um meio ambiente hostil de prostituição, lotado de chefões do crime e policiais intolerantes. É um filme de gângster e é um drama social, na jornada de um excluído para se reinventar.

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