90 anos de Jodorowsky nas telas e livrarias

90 anos de Jodorowsky nas telas e livrarias

Rodrigo Fonseca

27 de setembro de 2019 | 06h10


RODRIGO FONSECA
Nas prateleiras da Hontza, a maior livraria de San Sebastián, em paralelo à venda de catálogos e brochuras relativas à 67ª edição do festival de cinema local, pilhas de gibis com o nome Alejandro Jodorowsky nos créditos de autoria ganhavam espaços nobre, à cata do olhar dos quadrinhófilos, em reverência a um dos mais aclamados roteiristas das HQs (ou melhor, BDs) da Europa. O motivo: a comemoração dos 90 anos do xamã chileno, que é também tarólogo, escritor e cineasta, aliás, um dos mais respeitados do planeta, entre os diretores em atividade. Ele foi muito citado na maratona cinéfila da Espanha, sobretudo porque um dos longas mais procurados do evento, “Zerville”, de James Franco, faz uma explícita citação a Jodorowsky e a seu filmaço “A montanha sagrada” (1973). Em paralelo à adulação dos espanhóis, neste domingo, a Cinemateca Francesa inaugura uma retrospectiva de seus filmes, começando por uma pré-estreia do documentário ainda inédito “Psychomagie, un art pour guérir”, que marca a volta do realizador do mítico “El Topo” (1970) ao circuito. O longa-metragem estreia já no dia 2 de outubro em solo francês. Em paralelo, a rede livreira de Paris põe seus clássicos nos quadrinhos, entre graphic novels e histórias serializadas, à venda, em reedições de luxo. Seu mais novo trabalho como quadrinhista, “The Sons of El Topo”, é um dos mais procurados.
Há um mês, na Itália, a cultuada revista “Linus” deu capa para o regresso do caubói metafísico criado por Jodorowsky no fim dos anos 1960. E a promoção da banda desenhada acaba jogando holofotes italianos sobre a volta do cineasta às telas com “Psychomagie, un art pour guérir”. No Lido, ao longo do Festival de Veneza, o regresso do diretor ao écrã foi debatido por todos com alegria e avidez, mesmo que ele tenha preferido não enviar sua longa-metragem para lá. O mesmo ocorreu em San Sebastián, que estava lotado de filmes chilenos este ano, com destaque para “Fiebre Austral”, de Thomas Woodroffe; “El Príncipe”, de Sebastián Muñoz; e “Ema”, de Pablo Larraín. Por lá, muito se falou sobre as atuais inquietações do mestre Jodorowsky, nonagenário e ainda ativo. Seu experimento cinematográfico mais recente é um exercício muito intimista de filosofia aplicada à fé, a partir do credo xamanista criado por ele, com base na Cabala, nas pesquisas espirituais chilenas (de onde ele vem), no tarô e em Aristóteles.


Mas enquanto o .doc do aclamado diretor não sai, o Velho Mundo se debruça sobre sua obra nas BDs, em especial ao álbum que se candidata ao posto de best-seller ilustrado de 2019: “The Sons of El Topo”, que Jodorowsky escreveu e o ilustrador José Ladrönn desenhou. Idealizada em vários volumes (o número definitivo ainda não é sabido), esta graphic novel centrada numa releitura metafísica do Velho Oeste, com tradições judaicas e Nietzsche em seu recheio, é mais do que um fetiche para fãs de BDs: cinéfilos fazem filas nas lojas atrás desta continuação de um marco das telas. É nela que Jodorowsky dá continuação a seu filme mais famoso, “El Topo”, que, ao ser lançado em Nova York, em 1970, inaugurou a cultura dos midnight movies, as projeções à meia-noite de filmes considerados pouco apropriados para plateias mais de gosto mais conservador. O próprio diretor – um judeu chileno radicado em Paris – assumia o papel central, o de um pistoleiro místico.
“Nem todo bom quadrinho vive de poesia, assim como nem todo grande filme é onírico, mas a realidade a que nos agrilhoamos, nas últimas décadas, é uma contingência bruta, pautada por referências midiáticas de Hollywood, que nos leva a associar o desejo à violência física”, disse Jodorowsky ao P de Pop, quando lançou “Poesia sem fim” (2016) em Cannes, iniciando a produção da graphic novel. “Eu idealizei ‘El topo’ a partir da vontade de fazer um filme sem que eu precisasse pedir permissão para contar o que quisesse, com absoluta liberdade de fantasiar. Passei anos com o desejo de voltar a ele não apenar por haver algo a ser dito sobre aquele caubói errante, mas por estarmos vivendo hoje tempos crus, intolerantes, carentes de desbunde”.

Em 2016, no Brasil, a editora Gryphus lançou no Brasil a coletânea de ensaios “A jornada espiritual de um mestre”, em que Jodorowsky explica a gênese de seu xamanismo, que classifica como “psicomagia” (uma mistura de Freud com signos arcanos). É essa prática xamânica que dá base às páginas da BD “The Sons of El Topo. Na trama, Caim, filho mais velho do caubói El Topo, pensa em matar o pai, para liberar energias de que o Universo necessita para se expandir espiritualmente, mas desiste de seguir a trilha do ódio. Prefere ir atrás de um irmão, Abel, que não conhece. Começa aí uma jornada regada de magia, sensualidade e chumbo quente. “Eu faço arte para poder expandir os sentidos do mundo em alerta às pobrezas que o mercado impõe”, disse Jodorowsky. “Nos quadrinhos, eu encontrei um lugar de exploração da fantasia com a liberdade do inconsciente”.


p.s.: Até sábado, enquanto a mostra Jodorowsky não começa, a atração da Cinemateca Francesa é uma retrospectiva de Philippe Garrel, artesão local, membro tardio da Nouvelle Vague, especializado em investigações afetivas. O filme desta sexta é “L’Amant d’un Jour” (2017), no qual ele acompanha o desafio de um homem (o também diretor Eric Caravaca) para domar o ciúme de sua filha por sua nova namorada. Ambas têm 23 anos e demandam dele exclusividade. “Leio Freud sempre para poder entender do que o ciúme é capaz e só consigo ver esse sentimento como uma variável de desestabilização no jogo do amor. Um jogo de múltiplas combinações”, diz Philippe ao Estadão, em sua retrospectiva no Brasil, há um ano. “O amor é um jogo de poder. Quero dissecar sempre as dinâmicas opressoras do Poder”.

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