Verões de Valeria Bruni Tedeschi

Verões de Valeria Bruni Tedeschi

Rodrigo Fonseca

07 de fevereiro de 2020 | 10h16

Rodrigo Fonseca
Uma das estrelas de maior versatilidade do cinema europeu da atualidade, capaz de gravitar com enlevo do melodrama à gargalhada seja nas telas da França seja nas produções de sua Itália natal, Valeria Bruni Tedeschi volta às telas em maio à frente de “Eté 84”, o novo (e esperado) longa-metragem de François Ozon, com foco nos ímpetos suicidas de um rapaz na década de 1980. Mas há um filme com ela… dela… nos créditos de direção, que merece atenção redobrada: “A casa de veraneio”. Ao ser laureada como melhor atriz em Tribeca, em 2013, pelo feroz “Capital humano”, Valeria ouviu o júri do festival nova-iorquino frisar a palavra “elegância” como a base de seu método de interpretar. E é fato: mesmo no transbordamento do desespero, ela é capaz de se manter poderosa, perigosa, imune à fragilidade plena.

O que se disse de sua interpretação vale para seu desempenho como diretora em “A casa de veraneio”, trabalho mais maduro dela no posto de cineasta. A evolução se nota por sua maior intimidade com o refinamento dos quadros. A Côte d’Azur tem em “Les estivants” (título internacional do longa-metragem) sua dimensão de cartão postal, só que sua beleza vai sendo dilapidada frente aos ventos hostis que sopram de um encontro de família, em meio ao desespero de Anna. Cineasta de prestígio, ela perde o rebolado após ser chutada pelo namorado e rejeitada por uma comissão de financiamento. A crise é afetiva e profissional. Mas a aposta no carinho dos parentes pode ter sido a pior escolha dada a opção daquelas pessoas num isolamento emotivo em si mesmas, sobretudo a irmã Elena (Valeria Golino, que incendeia a tela com sua fúria). Valeria usa um dispositivo digno de “Parente é serprente” (1992), do mestre Monicelli: confinar um núcleo gigante de personagens em só cenário e dali observar colisões e contusões a partir de códigos de transgressão da moral. A observação gera riso, nervoso e transformações que fogem das normas clássicas de redenção. Não há ascese (a expiação dos pecados), há conforto. E isso é narrado a partir de uma direção de arte que traduz a cafonice inerente à estereótipo de “casa da mamãe” com uma saborosa escolha de cores saturadas. A fotografia de Jeanne Lapoirie (“120 batimentos por minuto”) adota uma linha solar, que expõe a busca por alegria perdida de Anna.

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