‘Star Wars’ no Oscar: a Força reage

‘Star Wars’ no Oscar: a Força reage

Rodrigo Fonseca

21 de janeiro de 2020 | 05h37

Rodrigo Fonseca
Lançado há um mês, meio às festas de Natal e sob uma saraivada de ataques da crítica e de até de fãs, “Star Wars: A Ascensão Skywalker” chegou à marca de 2,8 milhões de ingressos vendidos no Brasil, onde sua arrecadação beira R$ 54 milhões, e ainda conquistou, nos EUA, três merecidas indicações ao Oscar. Com uma bilheteria global estimada em US$ 1 bilhão, o longa-metragem concorre às estatuetas de melhor edição de som, efeitos visuais e trilha sonora, para o veteraníssimo John Williams. É uma limpeza de caminhos para uma aventura sideral que nasceu num parto espinhoso. Esta Parte Nove da epopeia originada em circuito em 1977 se manteve em cartaz apoiando-se menos na euforia em torno de seus heróis e mais no prestígio de personagens de moral torta ou de vilania explícita, como Pryde. Esse general de olhar vítreo e palavras cortantes trouxe Richard E. Grant para a saga meses após sua consagração (alimentada por uma indicação ao Oscar) como coadjuvante em “Poderia me perdoar” (2018). Seu bom desempenho eclodiu num momento em que o legado “Star Wars” tomou mais e melhores rumos no formato streaming, com a série Disney + “O Mandaloriano”, com Pedro Pascal. Nela também há um vilão atípico… e charmoso… à sua maneira.
Hoje septuagenário, lutando bravamente para levar às telas o livro “Fordlândia”, de Greg Grandin (sobre o desejo de Henry Ford de estabelecer na Amazônia a sua própria plantação de seringueiras), Werner Herzog começa a arrebatar uma nova legião de fãs juvenis para si, por conta de sua participação como ator em “O Mandaloriano”. Diretor de cults como “Aguirre – A Cólera dos Deuses” (1972) e a jóia documental “O Homem-Urso” (2005), o aclamado cineasta germânico já participou de 30 produções no posto de ator e dublador, com sua voz metálica, com direito a um papel na franquia “Jack Reached”, com Tom Cruise. No entanto, o vilão conhecido, até agora, apenas como O Cliente, na série idealizada por Jon Favreau, eleva sua popularidade para plateias alheias ao Novo Cinema Alemão e também para os entusiastas de seus longas de formação e de seus .docs recentes, como suas conversas dom Gorbachev, de 2019. Em recente depoimento, durante as coletivas para promover a produção (que esbanja adrenalina, num ritmo narrativo febril), Herzog disse que se trata “de cinema em sua melhor qualidade, permitindo que os atores enxerguem o visual que os cerca e não vejam apenas uma tela verde”. Ele se referia ao dispositivo tecnológico usado na série que cria digitalmente o ambiente estelar onde a trama se passa, em paralelo ao colapso do Império. Mas os atores também podem ver essa projeção, nos sets. O enigmático homem do lado trevoso da Força encarnado pelo cineasta encontra ressonância na figura mefistofélica de Pryde. Em seu canto de cisne, a versão J. J. Abrams de “Star Wars” faz uma aposta em intérpretes pouco usuais para encarnar a Maldade. E esse deslocamento de expectativas carrega a produção de charme.

Há tempos, desde que a franquia ganhou uma nova guinada, em 2015, faltava um ferrabrás à altura de Darth Vader. Ben Mendelsohn arriscou algo interessante (e inovador) como Orson Krennic em “Rogue One” (2016). Mas Herzog e Grant alcançaram voos mais rasantes. Pryde dá um volume de ironia que a parte nove das aventuras dos Skywalker não esperava. Existe, sim, frescor nesse nono – e aparentemente derradeiro – tomo da saga dos Cavaleiros Jedi. Sob a fotografia de detalhismo obsessivo de Dan Mindel, o filme carrega algo de “novo” na forma de um homem de 82 anos. William December Williams Jr., ou apenas Billy Dee Williams, regressa à franquia, já octogenário, sob a capa e a malandragem de Lando Calrissian, ladino estelar famoso, em “O Império Contra-Ataca” (1980), por ludibriar seu parceiro, Han Solo. A entrada dele, em “Star Wars – Episódio XIX: A Ascensão Skywalker” tem cheiro de pertença (a um legado estético) e aroma de revisionismo histórico. O homem de moral torta da década de 1980 regressa agora como um signo de heroísmo e de valores de inclusão. Lando não é mais o vaselina que podia passar a perna nos heróis da Aliança Rebelde. Ele é parte da resistência que a Comandante Leia Organa (a saudosa Carrie Fisher) armou contra as forças das trevas, ainda lideradas pelo neto de Darth Vader, Kylo Ren (Adam Driver, impecável como de costume), e, agora, acossadas pelo Imperador Palpatine (Ian McDiarmid), que retorna após uma aparente morte, por sua Força (às avessas) como Sith. Lando traz luz para um universo que tem em Pryde o neon rubro da perfídia. E essa perfídia tem um sabor de ineditismo num storytelling reconhecido por sua caretice.

Agora, não se trata de um requentar de fórmulas e clichês e, sim, uma reciclagem envernizada com a mais brilhante afetividade e pitadas de adrenalina. Como direção, o novo longa desfila as sequências de ação mais bem filmadas de SW nos anos 2010. O ritmo da ação é frenético, com tomadas de perseguição, trocas de tiro e embates de esgrima (a sabres de luz) mais enérgicas do que o costume da saga. E, eis que, em meio a um oceano de combates, Lando surge como uma centelha de familiaridade, uma lembrança de tudo o que a grife “Guerra nas Estrelas” construiu nas últimas quatro décadas. Já Pryde é um caminho para um futuro, um indicativo de ambiguidade mais conectado com os novos tempos. Espera-se que a série sobre Obi-Wan Kenobi, com Ewan McGregor, vá pelos mesmos trilhos. E se espera que este nono e belo longa do adeus saia da festa do Oscar com algum troféu.

p.s.: A grande aposta francófona para este fim de semana, após a realização do Rendez-vous Avec Le Cinéma Français (fórum anual de promoção audiovisual), terminado na segunda em Paris, é uma produção da Bélgica: “Adoration”, de Fabrice Du Welz. Na trama, um adolescente abalado pela incapacidade de ajudar sua mãe, hoje ligada a um hospital psiquiátrico, sai pelos bosques de seu vilarejo, onde esbarra com uma jovem que vai sacudir seu coração e sua paz.

p.s. 2: O que dizer do novo (e avassalador) “Bad Boys Para Sempre” (Bad Boys For Life”), de Adil El Arbi e Bilall Fallah, que o P de Pop viu na França, mas que só estreia no dia 30 no Brasil? Bom… a resposta seria: Obrigado! Obrigado! Obrigado! Mesmo. É uma releitura do melodrama (sobretudo das novelas mexicanas), num redesenho das cartilhas da ação, dando uma rasteira no politicamente correto. E é uma trama sobre decepção, com amores/ amigos jurados ou juramentados. Nada pode ser mais pertinente numa revisão crítica da década de 1990. Sucesso de bilheteria por onde passa, com US$ 112 milhões já em caixa, arrecadados (em três dias) nos Estados Unidos e mais uma penca de territórios, o terceiro longa de uma franquia renovadora de formatos e de representações é um gesto afirmação, tão necessário quanto são o “Pantera Negra” de Ryan Coogler e o “Dolemite” com Eddie Murphy. Este, aliás, com seu “Um Tira da Pesada” e seu “Um Príncipe em Nova York” foi o “pai” simbólico de Will Smith e de Martin Lawrence, que regressa impagável.

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