75 anos de Bigode em retrospectiva

75 anos de Bigode em retrospectiva

Rodrigo Fonseca

06 de julho de 2020 | 09h57

Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, Ettore Scola do Brasil, na paisagem de telhados mineiros, em foto de Arilda Drummond

Rodrigo Fonseca
Todos os dias desta 40ena, o Facebook recebeu uma postagem nova do cineasta Luiz Carlos Lacerda com um prato de comida apetitoso, seja um espaguete de pupunha ou alguma guloseima com abobrinha, demonstrando sua habilidade em poetizar até o mais simples dos momentos da espera por dias melhores. No dia 15 de julho, espera-se que ele poste a foto de um bolo… mas não uma tortinha qualquer, e sim uma com o glacê da felicidade, em comemoração a seus 75 anos, que hão de ser celebrados na TV com uma retrospectiva no Canal Brasil. Ao longo de cinco quartas-feiras, sempre às 23h45, a emissora vai exibir seus melhores trabalhos, sendo que o primeiro título da mostra será “Leila Diniz” (1987), com Louise Cardoso. No dia 21, a mesma emissora lança uma experiência dele no terreno das séries: “Rua do sobe e desce, número que desaparece”, com Fernanda Vasconcellos e André Arteche no elenco. É a história de dois amigos – uma aeromoça e um diretor de teatro – em busca de felicidade, no trabalho e nas coisas do coração. No cume das angústias inerentes à pandemia de Covi-19, Lacerda potencializou seu tempo e ainda lançou um longa-metragem inédito em meio a entressafra, nas plataformas digitais: “O que seria deste mundo sem paixão?”. Esta experiência poética sobre um encontro entre dois áses da literatura brasileira – Lúcio Cardoso (1912-1968) e Murilo Mendes (1901-1975) – está hoje disponível no NOW, Looke, Vivo Play e Oi Play. Ah… e o realizador, responsável por pérolas como “For All – O Trampolim da Vitória” (1997), que também é um poeta de peso, escreveu versos inéditos nesses tempos de isolamento, tipo esse:
POEMA DA QUARENTENA (VI)
Romanceiro.
Navegante, navegante, leva -me pra navegar.
Disse-me uma amiga querida
Que o mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Leva-me a voar com elas
Para bem longe, no mar.
Aqui não quero ficar.

Navegante, navegante,
Que maré nos salvará?
Deixa teus peixes de lado,
Não pares de navegar.

Nenhuma ilha nos vale
Nem aqui, nem acolá.
As procelas e os sargaços
Servirão para enfeitar
O teu barco, navegante.

Até que no horizonte
Estrelas venham iluminar
O teu caminho, indicando
Onde deves ancorar.

Navegante, navegante,
Leva -me para o teu mar.
As estrofes acima serão incorporadas na antologia “O Labirinto Febril”, hoje em preparação, resguardando no sagrado recanto da página impressa um lirismo talhado a partir de anos de combate contra o moralismo. Apelidado de Bigode e comparado a Ettore Scola por sua abordagem irônica dos costumes (os feios, os sujos e os malvados) e das mesquinharias, o cineasta falou ao Estadão sobre seu atual projeto para o cinema: uma adaptação do romance “O livro de João”, do mineiro Rosário Fusco (1910-1977), a ser rodado nas Gerais.

Cena da série “Rua do Sobe e Desce, Número Que Desaparece”

Qual é a maior saudade e qual é a maior alegria que você guarda do cinema, dos sets, nestes 75 anos de vida?
Luiz Carlos Lacerda:
Sinto falta do espírito aventureiro que uniu jovens apaixonados pelo fazer cinematográfico em Paraty, que fomos nós, unidos nas equipes do filme do Nelson Pereira dos Santos e posteriormente nas minhas. Vivíamos numa ilha isolada pela dificuldade de acesso (não havia ainda estrada asfaltada, íamos pela Serra de Cunha ou de trem da Leopoldina até Mangaratiba, onde pegávamos umas barcas precárias e lentas) e distante da repressão política da ditadura militar. Paraty e seu povo nos recebeu de braços abertos. Até a autoridade militar, o democrático Capitão Frutuoso, da Capitania dos Portos, sentava-se à mesa do Bar do Abel conosco, para ouvir o poeta e ator paratiense Zé Kleber tocar suas lindas canções. Ele foi fundamental para esse ciclo, pôs seus sobrados à disposição para sediar nossos filmes. Sinto saudade de muitas daquelas pessoas que nos deixaram: Nelson Pereira dos Santos, Leila Diniz, Dib Lutfi, Isabel Ribeiro, Rogério Noel, Luiz Carlos Ripper, Nildo Parente, Arduíno e Manfredo Colasanti, Irene Stefania, Nelson Dantas, Irenio Marques, Marco Botino Sabonete, Ronaldo Nunes, Regys Monteiro, Carlos Camuyrano, e o próprio Zé Kleber. E sem falar da falta de uma política cinematográfica que viabilize a produção e distribuição do cinema brasileiro, que estão, novamente, paralisadas.
Você tem uma ficção nova à vista, sobre a obra de Rosário Fusco. Qual é a influência de autores mineiros como ele sobre sua obra?
Luiz Carlos Lacerda:
Sempre digo que Minas , por sua paisagem que determina um olhar criativo, estimula seus artistas a imaginar o que há atrás de tantas montanhas, sedimentando, de forma definitiva, a produção artística. Isso vale tanto na Literatura quanto na Música, na Pintura e no Cinema. Sou consumidor da arte mineira desde sempre. Entrei nela por meio de Lucio Cardoso, Guimarães Rosa, Pedro Nava, Drummond, Murilo Rubião, Fernando Sabino, Maura Lopes Cançado, Humberto Mauro e os cineastas da minha e das novas gerações, que sempre estiveram sob o foco de minha criação… seja literária quanto cinematográfica. Os paulistas são os grandes revolucionários da linguagem; os cariocas, da sensualidade e do descompromisso; e os mineiros, da intensidade e do mergulho no profundo mistério dos sentimentos humanos. Trabalham em silêncio não por timidez, mas – como alquimistas da alma – para não arriscarem a superficialidade de seu olhar. Isso me interessa. Aprender os meandros dessa vertigem. Neste momento, debruço-me sobre o romance “O Livro de João”, de Rosário Fusco, que, em 1926, criou a revista “Verde” com um grupo de escritores, inserindo Cataguases no Modernismo, onde guarda tesouros da arquitetura e das artes plásticas. Estou fazendo uma adaptação livre para um Roteiro.
Como é a tua história com a produção audiovisual de Cataguases?
Luiz Carlos Lacerda:
Cataguases tem uma tradição de berço de uma revolução cultural, que inclui também a produção dos mais importantes filmes de Humberto Mauro. Ele chega à cidade no mesmo momento do lançamento da modernista revista “Verde”, em 1926. Em sintonia com essa tradição, há mais de uma década constituiu um polo cinematográfico, já tendo produzido cerca de 30 longas e 15 curtas-metragens, cujas equipes, em sua maioria, é de técnicos locais formados pela Fábrica do Futuro, e que tem driblado a letargia das políticas oficiais de estímulo à produção dos nossos filmes. Conheci sua criadora, Monica Botelho, que leu meu roteiro – uma adaptação do argumento de Lucio Cardoso chamado “Introdução à música do sangue”. Por meio da empresa de sua família, a Energisa, e com apoio do Polo, ela foi a principal patrocinadora. Naquele filme, pude testemunhar, na jovem equipe que me ajudou a realizá-lo, a mesma paixão que me movia na Juventude a fazer os filmes que fizemos em Paraty, com uma formação mais aprimorada.
Você sempre se refere a Nelson Pereira dos Santos como seu mestre. Qual foi a maior lição que recebeu dele?
Luiz Carlos Lacerda:
Nelson me inoculou a paixão pelo Cinema, ao ter o privilégio de ser seu assistente em muitos de seus filmes (“El Justicero”, “Fome de Amor”, “Azyllo Muito Louco”, “Como Era Gostoso o Meu Francês”, “Quem é Beta?”, “Amuleto de Ogum”). Ele me passou a segurança da inquebrantável capacidade de existência do Cinema Brasileiro – e isso porque ele foi um de seus criadores. Ensinou-me a lição de que nunca fomos uma indústria, mas uma cinematografia sólida e que vem construindo sua História enfrentando sistematicamente as regras desiguais de um mercado dominado pela indústria dos estúdios americanos e do colonialismo cultural. A deletéria imitação de identidades que não são as nossas passará, pois nosso cinema está inserido no processo geral da Cultura brasileira definitivamente. Aos que acusam nossos filmes de não interessarem ao grande público, a resposta está na sua permanência – seja nas sessões das cinematecas, nas mostras retrospectivas, nos cursos de Cinema no Brasil e no mundo, nos festivais internacionais, nas TVs, e, hoje, também nas plataformas digitais. E la nave va…

p.s.: Nesta “Tela Quente”, às 22h10, a TV aberta brasileira, via Globo, dá espaço ao britânico Jason Statham e seu indefectível “Mechanic”, em “Assassino a Preço Fixo 2: A Ressurreição” (2016), com Armando Tiraboschi. Na trama de “Mechanic: Ressurrection”, dirigida por Dennis Gansel, o matador de aluguel Arthur Bishop (Statham, esbanjando carisma) sai de seu toca pra fazer três missões de risco, a fim de salvar sua amada (Jessica Alba), de um supercriminoso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: