70 anos dos Cahiers no Festival do Rio

70 anos dos Cahiers no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

09 de dezembro de 2021 | 12h04

Cavi no Estação NET Rio, preparando a exposição que celebra a septuagenária “Cahiers” num esforço conjunto com Ilda Santiago e Fabrício Duque

RODRIGO FONSECA
Três dos títulos mais esperados do 23º Festival do Rio, que começa nesta quinta-feira, fazem parte da lista dos 10 Mais de 2021, da “Cahiers du Cinéma”, a bíblia do audiovisual, publicada em seu número 782: “Drive My Car”, de Ryusuke Hamaguchi; “Memoria”, de Apichatpong Weerasethakul; e “Benedetta”, de Paul Verhoeven. Essa enquete é polêmica, pois ignorou muita coisa boa. Só o fato de ter seu ranking aberto pelo insosso “First Cow”, de Kelly Reichardt (hoje na MUBI), e de ter esnobado “Titane” (a Palma de Ouro), “L’Evénement” (o Leão de Ouro) e “Má Sorte No Sexo ou Pornô Acidental” (o Urso de Ouro), já dá uma bela enfraquecida nessa escolha de títulos que poderiam ser emblemáticos do ano – sem contar a falta de “Infiltrado”, “Petite Maman”, “Esquadrão Suicida” e “Beginning”. Mas, ok… Toda a controvérsia gerada por essa lista já mostra o impacto que a “Cahiers…” continua tendo, em suas sete décadas de existência. Sua fundação: abril de 1951. Em sua gênese editorial estavam André Bazin, Jacques Doniol-Valcroze e Joseph-Marie Lo Duca. Ela nasceu como uma alternativa à “Revue du Cinéma”, unindo integrantes de dois cineclubes, o Objectif 49 (com Robert Bresson, Jean Cocteau e Alexandre Astruc) e o Ciné-Club du Quartier Latin. Doniol-Valcroze foi o primeiro editor, até a chegada de (um futuro cineasta) Éric Rohmer, em 1957. Realizadores como Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut escreveram em suas páginas, sempre protegidas por uma capinha amarelinha que, ao longo do tempo, passou a dar lugar a outra diagramação. Apesar de todas as intempéries recentes por que passou, a boa e velha revista francesa resistiu e reinventou-se sob a chefia de redação de Marcos Uzal, que faz uma triagem de 70 filmes para celebrar a septuagenária realidade de seu veículo, fundado em abril de 1951. Parte dessa trajetória histórica será relembrada, a partir de sexta, na maratona cinéfila carioca.

Um dos chamarizes do Festival do Rio é uma retrospectiva dos 70 anos da “Cahiers”, que inclui projeções de “A Marquesa d’O”, de Eric Rohmer; “Ascensor para o Cadafalso”, de Louis Malle; “O Dinheiro”, de Robert Bresson; “La Jetée”, de Chris Marker; “Loucuras de uma Primavera”, de Louis Malle; “O Planeta Selvagem”, de René Laloux; “Os Caracóis”, de René Laloux; “Paris Nos Pertence”, de Jacques Rivette; “Pierrot Le Fou – O Demônio das Onze Horas”, de Jean-Luc Godard; “Z”, de Costa Gavras; e “Zazie no Metrô”, de Louis Malle. Essa seção do festival reúne forças de Ilda Santiago, Cavi Borges e Fabrício Duque, que estão preparando uma exposição no Estação NET Rio, que reúne 350 números dos “Cahiers” que pertenciam ao crítico Ronald F. Monteiro. Foram impressas em forma de poster as capas de edições icônicas da revista. Há uma edição dedicada à morte do já citado Bazin (o Shakespeare do pensamento crítico europeu); uma edição recheada com uma entrevista com o diretor Cacá Diegues; e o exemplar chamado “O Brasil de Bolsonaro”, sobre o longa pernambucano “Bacurau”.
“Da ‘Cahiers’ saíram jornalistas que se tornaram grandes cineastas”, diz Cavi.

Um dos leitores mais apaixonados da “Cahiers”, o diretor Philippe Garrel integra a seleção do Festival do Rio com seu longa mais recente: “Lágrimas de Sal”, que, aliás, entrou nos 10 Mais da “Cahiers” de 2020. Com cerca de cem minutos, esplendidamente fotografados por Renato Berta, o mais recente drama d’amor do realizador de “O Ciúme” (2013) fala de um estudante francês aspirante a carpinteiro, Luc (Logann Antuofermo), que é siderado por seu velho pai (papel de André Wilms). Fiel aos ensinamentos de seu velho sobre a fragilidade do verbo viver, ele apaixona por uma jovem de família imigrante, Djemila (Oulaya Amamra), em meio a uma mudança de cidade. O rapaz se muda para tocar seus estudos, mas a paixão pela moça vai alterar sua rotina e liberar sentimentos que hão de abrir feridas em sua relação familiar. Onde e quando ver: Dia 14, Estação NET Gávea 5 – 16h.

Djemila (Oulaya Amamra) e Luc (Logann Antuofermo), em “Lágrimas de Sal”

Acerca da Première Brasil: Um dos eventos brasileiros de maior relevância internacional na luta pela inclusão social, a Festa Literária da Periferia (FLUP) participa do 23º Festival do Rio com um curta-metragem imperdível: “VIVXS!”, dirigido por Claudia Schapira, Roberta Estrela D’Alva e Tatiana Lohmann. Em um encontro diaspórico, poetas de diferentes partes do mundo se reúnem no Cais do Valongo, o maior porto de escravizados da História da Humanidade. Na companhia de ancestrais guardiões, com um visual de Exu e de pombajira, interpretados por Estrela D’Alva e Saul Williams, prestam homenagens aos povos da rua e proclamam mais uma vez que as vidas e a vozes negras importam. Lohmann assina a vertiginosa montagem do filme.

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