7 vezes Nelson Pereira na streaminguesfera

7 vezes Nelson Pereira na streaminguesfera

Rodrigo Fonseca

27 de fevereiro de 2022 | 11h57

Cult franco-brasileiro do pai do cinema moderno em nosso país

Rodrigo Fonseca
Zapeando pela streaminguesfera atrás de coisa boa pra animar a cinefilia neste carnaval, o P de Pop do Estadão topou com sete pérolas o pai do cinema moderno no Brasil, o realizador Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), espalhadas por duas plataformas, ao alcance de um clique. Na Amazon Prime, tem “Boca de Ouro” (1963); “El Justicero” (1967); e “Quem é Beta?” (1973). No Globoplay, há quatro títulos: “Rio 40 Graus” (1955); “Rio Zona Norte” (1957); “Vidas Secas” (laureado em Cannes, em 1964, com o Prêmio Humanitário da Organisation Catholique Internationale du Cinéma et de l’Audiovisuel); e “Memórias do Cárcere” (Prêmio da Crítica também da Croisette, em 1984). É uma seleção memorável para quem deseja conhecer e para quem quer revisitar a obra de um diretor festejado entre seus colegas imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL) por seu empenho em prol da difusão do filme nacional em variadas latitudes. Há dez anos, Cannes exibiu seu aclamado .doc “A Música Segundo Tom Jobim”.
O que se encontra no Globoplay é sua fase de arranque, de inspiração neorrealista, nos anos 1950, com traços do que se pode chamar de pré-modernismo cinematográfico. A plataforma da TV Globo traz ainda dois diálogos de Nelson com prosa de Graciliano Ramos (1892-1953). “Continuo gostando do Graciliano da mesma forma. Outro dia estava relendo um de seus livros, ‘Angústia’. Taí uma adaptação para o cinema que gostaria de ter feito”, disse Pereira dos Santos ao P de Pop em 2017, em meio ao lançamento de uma caixa de DVDs com seus filmes.

Nelson Pereira dos Santos concorreu quatro vezes ao Urso de Ouro de Berlim e três à Palma dourada de Cannes

Vale um aplauso o empenho curatorial da Amazon Prime em rever sua trajetória nas telas, pois esse streaming escolheu dois dos longas menos citados do diretor. Baseado na literatura de João Bethencourt (1924-2006), o irônico “El Justicero” é uma atualíssima reflexão sobre um certo ranço burguês na vida carioca. É uma comédia satírica ambientada no Rio de Janeiro dos anos 1960 sobre o filho playboy de um general encontrando um intelectual de esquerda que quer escrever e filmar uma narrativa sobre seu decadentismo essencial. Emmanuel Cavalcanti dá um show em cena como Lenine.
Igualmente raro é “Quem é Beta?”, a sci-fi franco-brasileira de Nelson. Sua trama decorre em tons de distopia, após uma catástrofe que modificou o estado natural do mundo e destruiu a sociedade civilizada. Nesse cenário, um casal começa uma nova vida em um abrigo. Mas o relacionamento deles é perturbado pela chegada de uma mulher.
Meses após a morte de Nelson, o “Jornal do Brasil”, onde Nelson trabalhou como copidesque, fez uma homenagem a ele revisando alguns de seus clássicos. Numa reportagem laudatório, colegas dele de ABL foram ouvidos, entre eles Antônio Torres. Baiano de Junco (cidade hoje chamada de Sátiro Dias), o escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, autor do premiado “Essa terra”, conferiu a releitura de Nelson para o clássico de Graciliano numa passagem por São Paulo. “Vi ‘Vidas secas’ pela primeira vez num cinema do Largo do Paissandu, em São Paulo, numa tarde de um dia de semana. A casa estava lotada de nordestinos, visivelmente identificados com a história que estava sendo contada na tela. Quanto a mim, jamais iria esquecer o impacto que o filme me causou. Daí para a frente eu não iria perder nenhum dos outros feitos por Nelson Pereira dos Santos. O que mais me impactou foi a sequidão – da luz, da terra, das relações humanas, enfim, da vida, de que a morte da Baleia se torna um símbolo indelével”, lembrou Torres.

Quem também falou nessa reportagem (e sempre fala de Nelson) é o pesquisador Fabiano Canosa, responsável pela projeção de clássicos da América Latina nos EUA como programador da sala The Public Theater, em Nova York. Nos anos 1970, programando longas brasileiros em NY, Canosa testemunhou o sucesso popular da estética de Nelson em solo estadunidense. “Gerry O’ Grady é um dos mais intensos agentes culturais das Universiades nos Estados Unidos. Ele fundou o Media Study Center, na Universidade de New York e, através dele, os grandes nomes da Avant-Garde internacional tiveram a oportunidade de participar de seminarios, dar cursos de cinema experimental, etc. Foi nesta epoca que eu mostrei ‘Vidas secas’ na universidade america. Era início dos anos 1970”, lembrou Canosa. “Ao ver o filme, O’Grady me falou, emocionado: ‘O filme dispensa dialogo. Visualmente, e o filme mais contundente que ja vi’. Mais tarde, Nelson Pereira e Gerry se tornaram grandes amigos e O’ Grady planejou e editou o programa em forma de tabloide que produzimos juntos para a retrospectiva que fiz dos filmes do Nelson, meu mentor, no Public Theater”.
Falando de mestres de nosso cinema, no Globoplay tem “Santo Forte” (1999), de Eduardo Coutinho, longa que redefiniu as bases do documentário brasileiro na virada do século.

p.s.: Confere no www.mubi.com o imperdível “NA PRAIA À NOITE SOZINHA” (“Bamui haebyun-eoseo honja”, 2017), de Hong Sangsoo. O prolífico diretor sul-coreano arrebatou o Festival de Berlim em 2017 à força da potência de sua companheira e habitual estrela Kim Minhee. Uma atriz (Kim) percorre uma cidade costeira, refletindo sobre seu relacionamento com um homem casado. Kim ganhou o prêmio de melhor atriz na Berlinale com seu arrebatador desempenho.

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