65 anos de Cinemateca do MAM

65 anos de Cinemateca do MAM

Rodrigo Fonseca

28 de junho de 2020 | 12h30

Cinemateca do MAM lotada @foto de Ricardo Cota

Rodrigo Fonseca
Lar de todo mundo que faz, estuda e (sobretudo) ama narrativas audiovisuais, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) tá de aniversário: o dia 7 de julho de 1955 é celebrado como marco de sua fundação. São 65 anos de cinefilia, inaugurados com um programa baseado em artes plásticas: “Escultura holandesa do fim da Idade Média”, “A janela aberta (evolução da paisagem do séc. XV ao séc. XX)” e “Van Gogh”. Hoje, a casa ainda não tem data para uma retomada de suas atividades físicas, com circulação do público, mas segue operando online, tendo em seu patrimônio a maior referência brasileira em preservação de filmes: Hernani Hefner. No dia 10/7, começam as comemorações na web, via transmissões gratuitas em www.vimeo.com/mamrio, com a projeção do .doc “Tudo por amor ao cinema”, de Aurélio Michiles, sobre um dos pilares da própria Cinemateca: Cosme Alves Neto. Serão oferecidas ainda duas mostras. A primeira é a Mostra Petrobras de Filmes para Crianças que vai apresentar um conjunto de 26 produções brasileiras voltadas para a primeira infância, selecionadas com a colaboração do Dia Internacional da Animação e do CINEAD da Faculdade de Educação da UFRJ. Os filmes estão organizados em três programas que reúnem animações realizadas com diferentes técnicas e por pequenos filmes denominados “Minutos Lumière”. Estes foram criados por crianças em um exercício audiovisual que procura recuperar os gestos iniciais dos cinegrafistas da empresa dos irmãos Lumière. Quem toca essa festa é o curador da instituição, o crítico Ricardo Cota, dono de um dos mais finos textos da imprensa especializada em artes no RJ.
“Em nosso acervo, temos o filme brasileiro mais antigo preservado, ‘Reminiscências’, de 1909. E na coleção de aparelhos temos uma lanterna mágica de 1895 com placas originais, como uma de ‘A Bela e a Fera’, bem rara’, diz Cota. ‘Temos muitos outros documentos raros e únicos em toda as coleções, como Roteiros originais do Glauber, do Eduardo Coutinho, do Lima Barreto. Coleção original da revista ‘O fan’, publicada pelo Chaplin Club. Ainda na parte de livros, temos o original do livro de poemas do Mário Peixoto, ‘Mundéu’. Na coleção de cartazes temos, por exemplo, o cartaz original do ‘O circo’ (‘The circus’, 1928), do Chaplin. Há ainda diversos cartazes de filmes brasileiros lançados no exterior. Temos o cartaz polonês de ‘Os fuzis’, temos posters de ‘O cangaceiro’, ‘Sinhá moça’ e ‘Selva trágica’. Há ainda o cartaz japonês de ‘Ópera do malandro’ e de ‘Erendira’. Há um de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ espanhol, e temos cartazes americanos de ‘O que é isso, companheiro?’, ‘Vagas para moças de fino trato’, ‘Redentor’, ‘Quelé do Pajeú’ e ‘Pixote’”.

Nos festejos de 65 anos, Cota anuncia ainda uma segunda mostra, conectada com a projeção do longa de Michiles, para marcar o aniversário da Cinemateca, que segue no dia 17, com “Humberto Mauro”, de André di Mauro. O doce sobre o pioneiro da brasilidade no cinema nacional representou nosso país em Veneza, em 2018. Em quatro programas, serão exibidos três longas e cinco curtas. No cardápio está “Até onde pode chegar um filme de família”, no qual Rodolfo Junqueira Fonseca parte do filme brasileiro mais antigo preservado, o já citado “Reminiscências”, para falar da história de sua família e do pioneiro do cinema Aristides Junqueira. Por último, entra na web um programa concebido pela Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) que reúne cinco obras conservadas por diferentes instituições de memória que simbolizam um pouco do trabalho desenvolvido por elas e sublinham a importância de uma ação coletiva na proteção e valorização do patrimônio audiovisual. Nesta sessão serão apresentados “Gafieira”, de Gerson Tavares; “Creche-Lar”, de Maria Luiza Aboim; “Carnaval de Rua – Porto Alegre”, produzido pela Wilkens Filmes; “Pantera Negra”, de Jô Oliveira; e “Eclipse”, de Antônio Moreno.
“Digo que a Cinemateca foi o segundo passo na minha formação cinematográfica. O primeiro, afetivo, foi dado de mãos dadas com meu pai, que adorava cinema e me levava semanalmente às salas de exibição espalhadas pelos Rio nos anos 1970”, diz Cota. “O segundo passo, de formação, ocorreu na Cinemateca, quando descobri que além da fruição cinematográfica, eu queria conhecer a sua linguagem. Nesse período, anos 80, a Cinemateca foi fundamental para que eu conhecesse a base de tudo: o cinema mudo. Foi ali que descobri Griffith, Eisenstein, Mario Peixoto, Humberto Mauro, Buñuel, Chaplin e muitos outros”.
Nos últimos dois anos, a Cinemateca contou diversas vezes com o engajamento dos integrantes da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, que fizeram tributos a Bergman, ao legado de representações LGBTQ na telas e a Warren Beatty. Estão previstas ainda homenagens à diva Marilyn Monroe, ao ator Steven McQueen, ao diretor Wes Craven e ao mago da TV Rod Serling, criador de “Além da Imaginação”. A sinergia entre a ACCRJ e o MAM continuará pelos próximos anos. Vale lembrar que será a retomada uma retrospectiva em tributo a Paul Newman, iniciada no primeiro trimestre e interrompida pela 40ena. “A ACCRJ tem sido uma das grandes parceiras da Cinemateca em sua programação”, diz Cota. “Em parceria com ela, realizamos mostras voltadas para cineastas, como Bergman e Kurosawa, e temáticas, como a que abordou alusões homoeróticas em filmes contra a censura. A ACCRJ também contribui por meio de seus membros, que participam de debates e da elaboração de publicações específicas para cada evento”.

p.s.: Mel Gibson vai mobilizar streamingosfera a partir desta terça-feira, como coadjuvante de luxo de “Force of Nature”, thriller de Michael Polish, ambientado numa região de Porto Rico assolada por uma catástrofe climática. Mas esta madrugada o ator e diretor vai bombar a tela da Globo à frente de “O Patriota” (“The Patriot”, 2000), longa mais subestimado de Roland Emmerich. Dublado por Júlio Chaves, ele vive um fazendeiro da mais pacífica índole que se vê obrigado a pegar em armas quando a Inglaterra avança sobre terras americanas, antes da independência dos EUA ser estabelecida. A sessão é à 0h15, no “Cinemaço”. Rola no Globoplay também.

p.s. 2: Às 19h30, a Band exibe “K-9 – Um Policial Bom Pra Cachorro” (“K-9”), de Rod Daniel, um marco de bom humor da “Sessão da Tarde”, agora transposto de canal. James Belushi é Dooley, um tira malandrão obrigado a aceitar um pastor alemão como parceiro. As cenas de ação do longa são exemplares, assim como sua versão brasileira, na qual Garcia Júnior dubla Belushi.

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