‘Felicidade’ é ver o Cine Joia lotado, à francesa

‘Felicidade’ é ver o Cine Joia lotado, à francesa

Rodrigo Fonseca

16 de setembro de 2019 | 18h50


Rodrigo Fonseca
Na macha da autoralidade e da diversidade, uma esquadra de pérolas francesas vai invadir o Cine Joia, o templo do audiovisual em Copacabana, de 26 de setembro a 09 de outubro, numa mostra do que há de melhor na indústria cinematográfica da pátria de Truffaut, com destaque para um folhetim com sangue meio senegalês, meio congolês. Melodrama dos bons, daqueles de arrancar litros de choro falando de maternidade, de luta contra a pobreza e de amores impossíveis, “Félicité” vai ser a atração de abertura da 5ª edição do festival Joias do Cinema Francês, ao lado de pepitas como “Lamb”, de Yared Zeleke, e “Nous Les Coyotes”, de Betsy Brandt. Chamado aqui de “Felicidade”, o longa-metragem colocou a África sob os holofotes do planisfério ao conquistar o Urso de Prata (de Grande Prêmio do Júri) no Festival de Berlim de 2017, e mais sete prêmios, tornando-se um dos filmes mais aclamados daquele continente nos últimos anos. Produção franco-senegalesa, rodada no Congo, sob a direção do francês de origem africana Alain Gomis, o longa-metragem, estrelado pela atriz de teatro e estreante nas telas Véro Tshanda Beya, até agora segue inédito em circuito no Brasil, com uma rápida passagem pela Mostra de SP e pela Maison de France do Rio. Quem curtir a estética de Gomis terá chance de conferir os ingredientes culturais das ruas de Kinshasa retratadas de modo febril pelo diretor, revelado com “Hoje” (“Aujourd’hui”, 2012).
“Não faço sociologia, nem folclore nos meus filmes, faço dramas humanos, falando de pessoas que têm a capacidade de aceitar a vida como ela é, com todas as suas dificuldades, driblando as limitações atrás de alegria, de prazer”, disse Gomis ao P de Pop na última Berlinale, onde o diretor fez história ao receber o Grande Prêmio do Júri ao lado de Véro. “Não trabalho com dados numéricos, trabalho com gente, com mães e filhos, pais e irmãos, buscando identificação com o público, levando-o a conhecer as contradições da cidade congolesa de Kinshasa. Vocês aí no Brasil, com a realidade das favelas, talvez enxerguem em vocês um pouco da Kinshasa por onde eu círculo. Um ambiente lotado de gente, marcado pela pobreza e pela corrupção, com total descaso das autoridades em relação à Saúde e à segurança pública. Mas as pessoas lutam e resistem. Eu falo sobre gente que formas de resistir”.

Calcado em um realismo entulhado de lixo, pobreza e exclusão, “Félicité” toma seu título emprestado do nome de sua protagonista, uma sofrida cantora de bar, que canta noite após noite para sustentar seu filho adolescente. Exuberante, ela vira objeto de desejo dos homens e alvo da inveja das demais mulheres. Mas a rotina de Félicité vai mudar quando o garoto sofre um grave desastre de moto. Há chances de que ele perca a perna Em guerra contra a miséria, a fim de encontrar o dinheiro para custear o tratamento do rapaz, ela contará com a ajuda de um faz-tudo de Kinshasa, o bêbado de carteirinha Tabu (Papi Mapka), fará de tudo para ajudá-la, não apenas consertando sua geladeira defeituosa, como tentando conquistar seu coração.
“O desconhecimento acerca dos múltiplos cinemas da África leva muita gente a crer que nós só dirigimos atores não profissionais aqui. Vendo Véro em cena, vocês terão ideia do qual preparadas são as nossas estrelas. Elas apenas possuem um repertório profissional e afetivo diferente”, explicou Gomis. “Existe uma linhagem de diretores africanos, como o grande Souleymane Cissé, que nos deixou como legado a potência da imagem em detrimento de narrativas clássicas, pautadas por viradas de roteiro. O diálogo, em nossos filmes, é um termo acessório: o silêncio fala mais alto, o barulho das ruas miseráveis fala mais alto. Respeito muito a tradição, mas não quero ficar preso ao passado do cinema africano. Quero me adaptar às novas plateias e conversar com as novíssimas gerações de jovens espectadores africanos que não viram nosso cinema em salas de cinema”.

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