‘600 Milhas’: Filme mexicano é favorito ao Oscar latino dos estreantes

‘600 Milhas’: Filme mexicano é favorito ao Oscar latino dos estreantes

Rodrigo Fonseca

23 Julho 2016 | 21h36

Tim Roth é um agente dos EUA refém de um jovem na fronteira do México em

Tim Roth é um agente dos EUA refém de um jovem na fronteira do México em “600 Milhas”, um dos concorrentes ao prêmio Platino

RODRIGO FONSECA

PUNTA DEL ESTE, Uruguai – Laureado no Festival de Berlim de 2015 com o prêmio de melhor filme de estreia, o thriller social e político de DNA mexicano 600 Milhas (600 Milles) pode repetir a dose de vitória neste domingo, dia 24, na cerimônia de entrega do troféu Platino, em solo uruguaio. O evento mobiliza a cidade de Punta Del Este com um porte de Oscar da América Latina, tendo o longa-metragem de Gabriel Ripstein como o favorito à láurea dos estreantes. Há hoje galardões de peso capazes de celebrar a força da América Latina nas telas, como o prêmio Fênix ou mesmo o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, com seu troféu Oscarito. Mas os Platinos chegam não apenas para expandir a celebração da força estética audiovisual do continente como também para incentivar uma integração de toda a indústria de língua espanhola e portuguesa das nações ibéricas, do Brasil e das pátrias hispânicas das Américas: são 23 países reunidos em um projeto cinematográfico comum. E o México tem em Gabriel um representante de uma nova geração, esforçada em buscar novas linhas narrativas no tráfego com o Real.

 

“Houve, nos últimos 15, 16 anos, uma banalização do conceito de realismo, que fica claro quando vemos qualquer reality show na TV: nada é mais ficcional, com um grau de manipulação entre os participantes capaz de superar as artimanhas de personagens de House of Cards”, diz Ripstein, em entrevista ao P de Pop em Punta Del Este, num encontro com a imprensa latina ligado à divulgação da entrega dos Platino. “Mas, na medida em que eu me aproximo de questões como a violência diluindo os chavões de gênero inerentes a ela, eu deixo espaço para que a realidade, uma realidade não midiatizada, possa se expressar a partir da relação entre os personagens”.

Entrevista com Ripstein

Entrevista com Gabriel Ripstein no Uruguai

Sensação do último Festival do Rio, tendo Tim Roth como um agente americano nas garras do tráfico no México, o primeiro longa do filho de Arturo Ripstein – mítico diretor de obras-primas como A Perdição dos Homens, de 2000, e O Evangelho das Maravilhas, de 1998 – subverte a lógica do melodrama ao propor uma reflexão sobre a amizade. Na trama, o jovem Arnulfo (Kristyan Ferrer) é responsável por armazenar armas para um cartel do México, trabalhando a mando de seu tio, ligado a criminosos. Quando um representante do Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives (ATF), Hank Harris (Roth) invade o depósito de rifles, pistolas e armas afins onde o rapaz trabalho, ele acaba se descuidando e caindo na mira de Arnulfo. Mas durante uma jornada de quase 600 milhas empreendida pelos dois, a relação entre eles vai além da condição de refém e algoz: nasce um aparente respeito mútuo e um laço de fraternidade, só que sujo de sangue.

“Eu estudei muito Traídos pelo Desejo, do Neil Jordan, para entender a relação que construiria entre Hank e Arnulfo a partir de uma lógica de confiança e traição, sem jamais me deixar levar pelo excesso emotivo, algo que é característico do melodrama, o gênero pelo qual o cinema mexicano é mais identificado. Aqui, esse filão, pelo qual eu tenho absoluto respeito, dá lugar a uma outra referência: o senso de realidade que encontramos em diretores como Michael Haneke e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Eu quero um realismo afetivo como o deles”, diz Ripstein, que filmou com base em uma reflexão sobre a política armamentista dos EUA. “Vivi anos lá nos Estados Unidos e percebi o quanto o consumo de armas é importante para eles. Daí nasceu a ideia de construir um road movie em torno das consequências do consumo de armamentos”.

“Ixcanul”, o vulcão da Guatemala

Fruto de uma sinergia entre a Entidade de Gestão de Direitos dos Produtores Audiovisuais (EGEDA) e a Federação Ibero-americana de Produtores Cinematográficos e Audiovisuais (FIPCA), a festa do prêmio Platino será realizada na noite deste domingão no Centro de Convenções de Punta del Este, tendo o colombiano O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra, e o guatemalteco Ixcanul, de Jayro Bustamante, como campeões de indicações. São 13 categorias ao todo e ambos concorrem em oito frentes cada.

“Existe muita gente filmando na Guatemala, mas não podemos dizer que temos uma indústria e sim que existe um grupo de gente filmando a ferro e fogo, para expressar suas questões. As minhas, neste meu primeiro longa, é retratar a latência da força que vem da terra, da força da mulher”, disse Bustamente, em entrevista às vésperas da premiação, ciente de que é o maior adversário de Ripstein no prêmio de melhor filme de estreia com seu caudaloso ensaio sobre afirmação do desejo a partir do drama de uma jovem ameríndia, criada nas cercanias de um vulcão, forçada a se casar aos 17 anos. “No cinema, o termo ‘latino-americano’ é mais do que um gentílico: é um rótulo redutor que pasteuriza diferentes identidades nacionais. Mas, apesar de termos uma interseção territorial e carregarmos uma herança histórica, nossas filmografias são distintas entre si, tendo na diversidade sua riqueza”.

Ricardo Darín em

Ricardo Darín em “Truman”: homenagem pelo conjunto de uma carreira de sucessos

Além dos dois, concorrem na categoria principal, a de melhor filme, os longas: O Clã, de Pablo Trapero (Argentina); O Clube, de Pablo Larraín (Chile); e Truman, de Cesc Gay (Espanha). O Brasil só aparece como coprodutor do argentino Paulina, de Santiago Mitre, indicado aos prêmios de melhor atriz (Dolores Fonzi) e som (Edson Secco). O muso argentino Ricardo Darín concorre como melhor ator por Truman, mas já garantiu para si um troféu-tributo em honra de suas glórias cinematográficas do passado.

“Trabalhar é o que torna o ofício de atuar algo em construção. Não sigo métodos, eu faço”, diz Ricardo Darín, que já ganhou o troféu Platino de júri popular por Truman. “Já fiz filmes que ficaram aquém do esperado, mas não me arrependo deles. Eles me deram a oportunidade de buscar algo, eles me representaram uma frente de trabalho. Para alguém que começou a filmar aos dez anos, isso é fundamental. Acreditar que a experiência te preparou para tudo, acreditar que você já sabe o que fazer… isso é um convite a um equívoco”.