‘B.O.’, a metalinguagem do cinto apertado

‘B.O.’, a metalinguagem do cinto apertado

Rodrigo Fonseca

09 de maio de 2019 | 08h26

Reator nuclear do humor, Nelson Freitas tem uma participação que injeta o combustível da picardia no filme “B.O.”, um exercício de metalinguagem

Rodrigo Fonseca
Garantia de boas risadas, vitaminadas pela aparição de talentos como Leticia Isnard, Luísa Arraes e George Sauma, a comédia B.O., de Daniel Belmonte e Pedro Cadore, centrada na gangorra afetiva de quem faz cinema com tostões do próprio bolso no Brasil, vai tentar a sorte em circuito a partir desta quinta-feira, após uma consagradora passagem pelo FICA.VC – Festival Colaborativo Audiovisual, em 2018. A hilária participação de Ronaldo Mourão como um francês que empresta sua bourgeoisie à realização de uma produção de baixo orçamento já sustenta o interesse neste longa-metragem. Ele ganha a plateia pela inteligência, ao retratar a luta contra a precariedade de uma filmagem com cinto apertado. Reator nuclear de gargalhadas, Nelson Freitas tem uma divertidíssima participação que já vale o ingresso.

Idealizado por Cadore, Belmonte e Bruno Bloch (que assina o roteiro com os dois cineastas), o longa-metragem apresenta uma história que poderia ser a deles: após terem seus filmes de comédia rejeitados, dois jovens diretores resolvem fazer um drama de baixo orçamento para enviar para festivais. Essa última aposta na carreira cinematográfica lhes parecia promissora, porém uma série de acontecimentos faz com que os dois já não tenham mais tanta certeza disso. Assim, embaralhando realidade e ficção, fato e fantasia, “B.O.” se materializa como um projeto independente realizado de maneira colaborativa a partir de recursos obtidos em uma plataforma de financiamento coletivo. O longa nasce da parceria de um grupo de jovens artistas determinados a unir forças para se inserir no mercado audiovisual e conta com a participação de nomes como Mateus Solano, George Sauma, André Mattos e João Pedro Zappa, entre outros. Trata-se de um filme de baixo orçamento sobre a produção de um filme de baixo orçamento, tendo seu enredo apoiado na metalinguagem para parodiar as dificuldades enfrentadas por quem quer realizar cultura de maneira independente. Belmonte e Cadore levaram o filme para o exterior, no Festival LABRFF (Los Angeles Brazilian Film Festival), em 2018, e saíram de lá laureados como o Special Award Comedy Recongnition.

Com a palavra, os diretores:
Mais do que uma comédia, “B.O.” é um minicurso de cinema para quem não imagina quais são as agruras do meio. O que o processo de filmagem do projeto ensinou a vocês sobre o meio?
DANIEL BELMONTE: Tudo. O processo de filmagem foi nossa primeira incursão como realizadores no cinema. As necessidades de cada momento que nos guiaram e nos ensinaram como resolvê-las (ou como deveríamos ter resolvido, depois de dar errado). O filme é um minicurso porque a filmagem em si foi uma grande faculdade para os envolvidos no projeto.
PEDRO CADORE: Principalmente a ter paciência. Cinema é uma arte artesanal. É preciso ter tudo bem planejado e respeitar o tempo dos processos. Nós filmamos o longa em duas semanas, porém começamos a escrever o primeiro tratamento há cinco anos. É preciso pensar em como resolver cada passo por vez: Roteiro, pré-produção, filmagem, montagem, finalização e por fim, o maior obstáculo de todos, fazer chegar ao público. Cada etapa teve sua dificuldade e superação.

Qual é a tradição de humor com a qual vocês dialogam?
DANIEL BELMONTE: Os filmes de Judd Apatow e Seth Rogen influenciaram muito nosso gosto na adolescência, assim como os seriados do Larry David e The Office, tanto a versão americana quanto a inglesa . No teatro, espetáculos como “Z.É.” e “Nós na Fita” nos fizeram ter a vontade de trabalhar com humor. E por último, nossa maior referência, não só pelo senso de humor, mas por seu espírito artístico e realizador é o grande mestre Domingos de Oliveira.
PEDRO CADORE: Além das referências citadas pelo Daniel, podemos destacar não só referências de humor, mas também referências estéticas como “A noite americana” e “Vivendo no abandono”. A nossa iniciativa é tentar chegar numa comédia com uma cara diferente.

p.s.: A Panini Comics acaba de desovar nas prateleiras brasileiras a revista mensal do Shazam, de carona no sucesso mundial do filme com Zachary Levi. Os desenhos da HQ são de Dale Eaglesham.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.