‘500 Almas’ do real: Joel Pizzini em etnopoemas

‘500 Almas’ do real: Joel Pizzini em etnopoemas

Rodrigo Fonseca

06 de agosto de 2020 | 12h55

Joel Pizzini prepara “Zimba”, sobre o diretor teatral Zbigniew Ziembinski

Rodrigo Fonseca
Duas palavras essenciais à dimensão existencial e experimental para o documentário brasileiro contemporâneo, “etnopoema” e “filmensaio”, ganharam saliva, corpo e al… “500 Almas” durante o colóquio do diretor Joel Pizzini (indicado ao Urso de Ouro de Berlim, em 2015, com “Mar de Fogo”) no seminário online Na Real_Virtual, realizado na noite de quarta, na web. Envolvido agora em uma biopic Zbigniew Ziembinski (1908 – 1978), um dos pilares da reinvenção dos palcos brasileiros nos anos 1940, o cineasta compartilhou com os ouvintes do simpósio organizado pelo crítico Carlos Alberto Mattos e pelo cineasta Bebeto Abrantes (havia 120 pessoas na arrancada) estratégias poéticas de registrar a memória.
“Queria falar, inicialmente, um pouco da minha trajetória. Ela começa, justamente, em Mato Grosso e comecei em uma trajetória de jornalista, que é a minha formação. Acabei tendo um curso muito reducionista. E, fazendo .docs, eu sempre me deparo com… e contra… tudo que foi encucado nessa minha deformação. São mitos do certo e errado do jornalismo, que regeu o documentário convencional. Conversas sobre isenção, sobre imparcialidade… eu aprendia isso, aprendia que você deve ser isento e não pode manipular a realidade. Só que, paralelamente, eu cometia meus poemas, em segredo. Essa dimensão poética apareceu como questão para que havia decidido fazer um tipo de cinema documental, que é um desdobramento normal de quem trabalha com jornalismo”, ponderou Pizzini em sua fala na https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. “Estudei na Universidade Federal do Paraná e, na época da anistia, tinha uma inquietação muito forte para a reconstrução do país e redemocratização. Eu vi, naquela época, uma cópia restaurada de ‘Limite’, de Mario Peixoto, e aquele longa me siderou completamente, porque percebi que existiam filmes que poderiam ser poéticos em si, sem precisar falar sobre poesia”.

Organizado sob produção de Márcio Blanco e seu Imaginário Digital, com intenção de reunir suas conversas em livro, o Na Real_Virtual já reuniu titãs da não ficção. Maria Augusta Ramos, Petra Costa, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Walter Carvalho e Belisario Franca já falaram. Esse time comentou sobre seus processos, suas metodologias e suas poéticas, oferecendo aos ouvintes reflexões sobre como construir uma narrativa documental, como Pizzini fez em seu premiado “500 Almas”, de 2004, a partir de um contato com os indígenas do povo Guató.

“Manoel de Barros, com quem eu dialoguei no filme ‘Caramujo-Flor’, foi um poeta que citou muito os Guatós, pois eles são uma etnia mítica. Vou recuar um pouco sobre a minha motivação de fazer o filme. Quando eu era criança, ouvia falar muito que uma tribo tinha sido extinta e eram os Guatós. Eles ressurgiram. A raiz do filme, veio um pouco desse encantamento mítico de um ressurgimento. Eu ouvia falar isso e era um mistério. O Manoel de Barros, nos seus poemas, sempre citava personagens Guatós e conviveu com alguns. Mas os Guatós não existiam juridicamente”, contou Pizzini ao Na Real_Virtual. “Quando fui fazer o .doc, fiz uma visita a essa ilha que aparece no filme e que fica na fronteira entre o Mato Grosso e a Bolívia. Fui para lá e lembro que o primeiro movimento foi uma pesquisa, na qual fui assistir a tudo que foi feito. Tinha visto várias reportagens que diziam que essa etnia estava vivendo em uma situação de fome e em um estágio abandonado. Já fui com a culpa de pensar que eu era mais um que iria colocar um tripé e iria explorar essa realidade. Quando chego lá, vejo que não era bem assim. Aqueles indígenas, de tão esfomeados, desenvolveram um mecanismo de defesa. Fui preparado para desenvolver um discurso, um argumento e voltei de lá pensando na imobilidade, n essa ideia da ausência da memória. Desenvolvi um argumento afinado com a Antropologia Contemporânea, para o qual li tudo. Quando volto para filmar, a coisa muda completamente de figura. Percebo que os indígenas ficaram me estudando e, durante a pesquisa, percebi que eles estavam totalmente ligados. No momento que a câmera é colocada, eles começam a fazer um filme que é desejado por eles. Aí começa um pacto, entre o filme que imaginei e o filme que eles queriam. Eles perceberam a potência daquele instrumental para produzir uma memória para eles. Lembro que quando o filme foi exibido em Campo Grande, estavam lá os indígenas, sobretudo, a figura de uma delas, a Josefina. Perguntei se ela aprovava o filme e ela disse para mim: ‘Agora posso entrar para a eternidade’. Foi algo marcante”.

Ao longo das últimas três décadas, Pizzini investiu seu olhar em retratos sobre realizadores como Peixoto, Glauber Rocha (“Anabazys”, feito com Paloma Rocha) e Rogério Sganzerla (“Mr. Sganzerla – Signos de Luz”); sobre pintores como De Chirico (“Enigma de um Dia”); sobre o poeta Manoel de Barros (“Caramujo-Flor”) e sobre o cantor Ney Matogrosso (“Olho Nu”). “Na minha trajetória, só tem um filme que tentei fazer sobre nada, o ‘Dormente’. Percebi que estava entrando em um campo filosófico que era mais complexo ainda: o da poesia. Na época, estava muito exaurido de trabalhar com muitos personagens e falei: ‘Preciso fazer um filme sobre nada!’, conta Pizzini. “Eu me meti a fazer esse filme, que era um produto de uma instalação para a Bienal de São Paulo. Ficou me inquietando e achei que aquilo precisava de desdobramentos. Logo ele se transformou em um filme. Faço poesia a partir do que existe por aí”.
O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: Estima-se que o 68º Festival de San Sebastián (18 a 26 de setembro), que vem anunciando suas atrações aos poucos, vá fazer uma homenagem ao cineasta chinês Jia Zhangke, exibindo seu filme mais recente: o documentário “Swimming Out Till the Sea Turns Blue”, sobre uma festa literária no interior de seu país.

p.s.2: Golaço da “Sessão da Tarde” nesta quinta, às 14h50: “O Melhor Amigo da Noiva” (“Made of Honor”, 2008), de Paul Weiland. Na trama, Tom (Patrick Dempsey), inventor de um colete de papelão para proteger o copo dos bebedores de café, descobre-se apaixonado por sua melhor amiga, Hannah (Michelle Monaghan), quando esta anuncia seu casamento. Ele é escalado para ser o “padrinho”, mas tentará de tudo para boicotar o casório, o que rende situações hilárias. No Brasil, Priscila Amorim dubla Michelle e Reginaldo Primo empresta a voz a Dempsey, numa atuação impecável.

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