50 anos de Bressanismo em 2017

50 anos de Bressanismo em 2017

Rodrigo Fonseca

22 Dezembro 2016 | 10h42

Assistente de direção de

Assistente de direção de “Menino de Engenho” (1965), Julio Bressane estreou nos longas em 1967, com “Cara a Cara”

RODRIGO FONSECA
Alvo de homenagem na 20ª Mostra de Tiradentes (20 a 28 de janeiro), pelo conjunto de sua carreira como atriz e diretora, Helena Ignez protagonizou em 1967 uma irônica reflexão sobre a caretice nossa do dia a dia, o filme Cara a Cara, essencial para a fundação de uma das filmografias autorais mais sólidas da América Latina: a de Julio Eduardo Bressane de Azevedo. Foi o primeiro longa-metragem dele. Pelas contas, em 2017, o diretor estará somando 50 anos de atividade no formato, com o elogiado Beduíno pra entrar em circuito. Se somarmos quantos cineastas brasileiros conseguiram exibir seus trabalhos nos maiores festivais do mundo nas duas últimas décadas – incluindo aí  Veneza, Cannes, Roterdã e Locarno -, é difícil que alguém supere o realizador de Matou a Família e Foi ao Cinema (1969) em número de participação nestes eventos. Brinca-se que o culto em torno da obra – recheada de análises filosóficas – do realizador carrega um apelido: é o Bressanismo. Longa vida a este culto.

“Beduíno”, longa inédito aclamado em Locarno, festival suíço

De todos os realizadores associados ao rótulo de “cineasta marginal”, o que mais produziu nos últimos 20 anos foi Bressane: treze longas-metragens foram filmados por ele nesse período. De todos os filmes dele, o que mais me cala ao peito vem do princípio da Retomada, quando ele prestou uma homenagem à MPB ao transformar em filme a vida do cantor Mário Reis (1907-1981), cuja voz subverteu a tradição dos rouxinóis de dó de peito da música brasileira. O Mandarim, lançado pelo diretor em 1995, é um tributo crítico a Reis e seu legado estético, fortalecido (e muito) pela presença do ator Fernando Eiras no papel principal. Seu cantar pausado, com se falasse os versos das letras que encampava, foi recebido como uma renovação no cenário popular da música no país. Bressane constrói seu quase-musical a partir de procedimentos ainda mais radicais do os apresentados por ele próprio em Tabu (1982), sobre Lamartine Babo. Lá, ele se ateve mais a uma linha narrativa, procurando convidar a plateia para acompanhar uma aventura sonora de Babo.

“O Mandarim”: pérola da Retomada

Fotografado por José Tadeu Ribeiro e montado por Gilberto Santeiro, O Mandarim segue uma estrutura mais livro, dialogando com a lógica do videoclipe e com números musicais que por vezes de isolam do todo. A função deles no filme é ilustrar a força da música para a trajetória de Reis, contada a partir de seus amores, dos mistérios que cultivou em sua rotina discreta e seus encontros com titãs da arte brasileira. Chico Buarque entra em cena como Noel Rosa e Gal Costa vira Carmen Miranda, ambos sem a necessidade de recursos de maquiagem ou balangandãs. Tudo se resume á palavra e aos movimentos de câmera de Bressane, em mais uma diabrura genial.