43º Festival de Moscou rastreia autoralidades

43º Festival de Moscou rastreia autoralidades

Rodrigo Fonseca

26 de abril de 2021 | 14h29

“Downstream to Kinshasa” investiga traumas de guerra no Congo

RODRIGO FONSECA
Terminado o Oscar, com a merecidíssima vitória de “Nomadland”, as atenções do cinema se voltam para maratonas curatoriais de curtas e longas-metragens inéditos, como o 43º Festival de Moscou, iniciado na quinta-feira, na Rússia, e só agora apreciado com a devida atenção pela cinefilia global, com direito a sessões da série carioca “Os Últimos Dias de Gilda”, de Gustavo Pizzi, com Karine Teles. De todos os concorrentes já exibidos, na disputa pelo troféu São Jorge de Ouro, sendo 14 títulos em disputa pelo prêmio de melhor filme, uma comédia com CEP da Romênia – “#dogpoopgirl”, de Andrei Hutuleac, sobre linchamentos virtuais – é a favorita para levar as láureas do júri presidido pelo cineasta filipino Brillante Mendoza. Mas na curadoria do evento, arquitetada sob os auspícios do diretor Nikita Mikhalkov, há pérolas em latitudes que não só a da competição principal. Um dos melhores exemplos é o documentário “Downstream to Kinshasa”, de Dieudo Hamadi, cineasta do Congo conhecido aqui por “Mama Colonel”, de 2017. Em seu eletrizante novo exercício autoral, Hamadi mostra que, durante duas décadas, as vítimas da Guerra dos Seis Dias têm lutado em Kisangani para o reconhecimento político deste sangrento conflito, exigindo compensações do Estado. Cansados de apelos mal sucedidos, suas vítimas buscaram dar voz a suas reivindicações ao longo de viagem de rio.
“A indústria cinematográfica do Congo é quase inexistente. A produção de filmes é frequentemente um milagre, que se baseia em esforços individuais, na vontade de todos e, por vezes, em subsídios estrangeiros”, disse Hamadi ao Estadão, por email.

Julie Delpy dirige e estrela “Minha Vida, Minha Zoe”

Há uma forte expectativa em torno do filme de estreia da aclamada documentarista turca Eylem Kaftan nas veredas da ficção: “Colmeia” (“Kovan”). Na trama, os negócios que a imigrante de Istambul Ayse (Meryem Uzerli) mantinha na Alemanha não estão a prosperar, o que a leva a regressar à sua cidade natal. Lá, ela espera fazer valer o último desejo da mãe moribunda: cuidar de seu apiário. Ayse se esforça por tornar o seu mel que começa a produzir conhecido internacionalmente. Mas coisas ficarão difíceis para ela graças à aparição de um convidado inesperado: um enorme urso.
Numa seção intitulada Mestres, Mikhalkov prestigiou a evolução da atriz Julie Delpy como cineasta ao escalar seu novo trabalho por trás das câmeras: “Minha Zoe, Minha Vida” (“My Zoe”). É um drama sobre uma geneticista às voltas com uma tragédia envolvendo sua filhinha, tendo que viajar Rússia adentro em busca de um médico eslavo que pode ajuda-la. Na mesma seleção, encontra-se o novo trabalho de Lav(rente Indico) Diaz. Famoso por filmes de duração quilométrica (onde cada segundo é uma poesia), o diretor filipino de 62 anos foi laureado na seção Orizzonti do Festival de Veneza de 2020 com o troféu de melhor direção, conquistado por “Genus, Pan” (“Lahi, Hayop”), importado agora por Mikhalkov. É um exercício de autoralidade enxuta – são “só” 157 minutos – pra um cineasta que foi premiado na Berlinale de 2016 com o laurel de experimentação de linguagem por um loooooooooonga-metragem de oito horas: “Canção Para um Doloroso Mistério”. Naquele mesmo ano, abocanhou o Leão de Ouro por “A Mulher Que Se Foi”, de três horas e 46 minutos. Seu novo trabalho, feito com a maestria habitual da fotografia em P&B, faz uma analogia entre seres humanos e animais, debatendo uma certa prosopopeia existencialista a partir de casos de submissão.

Em seções paralelas, “Natural Light”, de Dénes Nagy, chegou cheio de moral, precedida pelo prêmio de melhor direção conquistado na Berlinale. A Hungria desfila toda a sua maturidade como polo produtor audiovisual à força de um drama de guerra que reconstitui (a partir da estonteante fotografia de Tamás Dobos) o lamacento ambiente da URSS ocupada, em 1943. À época, sob um rigoroso inverno, soldados húngaros foram convocados para vasculhar a região, tentando ajudar e mesmo patrulhar aldeões. Um dos combatentes é o oficial István Semetka (Ferenc Szabó, em uma feérica atuação), que observa a brutalidade à sua volta buscando entender como agir.
Prometido como filme de encerramento das atividades moscovitas, o musical finlandês “Le Café de mes Souvenirs”, do ator Valto Baltzar, pode arrancar baldes de lágrimas de quem tem acompanhado o evento online – e presencialmente – com sua homenagem a Jacques Demy (1931-1990) e à sua obra-prima na direção: “Os Guarda-Chuvas do Amor” (Palma de Ouro de 1964). No longa de Baltzar, fotografado com excelência por Kimmo Koskela, uma garçonete vive uma paixão por um professor de Francês, sendo boicotada por sua mãe controladora. “Eu venho do teatro e escolhi debutar na direção de cinema prestando uma homenagem à forma como Demy apostava na arquitetura dos afetos”, disse Baltzar ao P de Pop, via Zoom. “Lógica e emoção devem andar juntas na vida”.

“Natural Light”, de Dénes Nagy: melhor direção em Berlim

p.s.: O galês Anthony Hopkins surpreendeu expectativas ao conquistar o Oscar de melhor ator, domingo à noite, por sua (melhor) interpretação (em anos) à frente do triste “Meu Pai” (“The Father”), longa de estreia do dramaturgo Florian Zeller. Ele vive um engenheiro ancião às voltas com a erosão de sua memória.

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