Mordida na maçã de Steve Jobs

Mordida na maçã de Steve Jobs

Rodrigo Fonseca

14 de novembro de 2015 | 22h55

Jobs 13

LISBOA, Portugal – Assombrada pela tragédia do terror na França, a capital lusitana passou o dia meio acanhada, entocada em suas casinhas e suas pastelarias, com medo de tiroteios se passarem por aqui, abrindo uma deixa para apenas uma (e segura) diversão – aliás a maior de todas –, chamada cinema. E a busca por bons filmes se deu no momento da estreia de uma obra-prima: Steve Jobs, de Danny Boyle. Como o gajo inglês fez sucesso e papou uma pá de Oscars com seu Quem Quer Ser um Milionário?, em 2009, virou quase um esporte da ala mais rançosa da crítica falar mal dele. Mas com o trator Michael Fassbender a seu lado, vai ser difícil alguém virar as costas para uma linguagem inventiva (meio copy and paste, metonímica na linhagem da “parte pelo todo”, mas aberta a bifes de texto nos diálogos) em prol de uma narrativa clássica, de DNA à la grega, com melodrama, humor e redenção em igual medida. E que ator triunfante é Fassbender em sua luta para espatifar os jargões das cinebiografias e dar a seu personagem alguma originalidade.

Michael Stuhlbarg é o melhor dos bons coadjuvantes do longa de Danny Boyle

Michael Stuhlbarg é o melhor dos bons coadjuvantes do longa de Danny Boyle

Não, Steve Jobs não se atém aos bastidores de estabelecimento da Apple como indústria de ponta no cosmos tecnológico. Isso está lá, no roteiro quase jornalístico de tão factual de Aaron Sorkin, mas apenas como baliza de realismo para uma história de afimração de paternidade. De um lado, Jobs é pai (ou quase) de seus hardwares de primeira geração: o “quase” ficará mais claro para quem ouvir, no écrã, a frase “Vocês são os músicos, mas eu sou o regente da orquestra”, em relação à sua equipe de técnicos. Mas, do outto, ele é pai reticente de uma garotinha a quem vira as costas (ou quase). E é essa a dinâmica que mais interessa a Boyle, criando um filme família com idas e vindas no tempo em sua montagem.
Fala-se muito do desempenho de Seth Rogen, de fato imponente, mas o grande coadjuvante é o de Michael Stuhlbarg no papel de Andy Hertzfeld. O genial Arnold Rothstein de Boradwalk Empire transpira fragilidade como o designer e programador que desafia Jobs em sua negligência paterna.
A estreia brasileira do longa-metragem anda prevista para 21 de janeiro.

No mais, aqui da Cinemateca Portuguesa, um dos lugares mais lindos deste planeta, tem-se o deleite de acompanhar uma retrospectiva da obra completa de Jean?Claude Rousseau, mestre do plano fixo, conhecido por produções como Les Antiquités de Rome (1989).

Fora isso, no Cine Medeia Monumental, rola o Lisbon & Estoril Film Festival’15, até amanhã, com curadoria competitiva de Rui Tendinha. Hoje, Amos Gitaï, papa do cinema de Israel, esteve aqui com seu Rabin, The Last Day, cuja projeção correu sob escolta policial. E o LEFF trouxe também nosso potencial concorrente ao Oscar de melhor filme: Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert, que já circula pelas redondezas.

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