20 anos de ‘Ed. Master’ no Cine Arte UFF

20 anos de ‘Ed. Master’ no Cine Arte UFF

Rodrigo Fonseca

03 de maio de 2022 | 11h01

RODRIGO FONSECA
Joinha, joinha é a mostra que o Cine Arte UFF, em Niterói, iniciou na segunda: a retrospectiva “2002 em 6 Filmes”. É um evento que resgata produções que mudaram a História, pelo menos para o cinema brasileiro, há 20 anos. Tem “Madame Satã”, de Karim Aïnouz, e “Cidade de Deus”, que rendeu a Fernando Meirelles uma indicação ao Oscar. Completam a retrospectiva “Ônibus 174”, de José Padilha; “Durval Discos”, de Anna Muylaert; e “Amarelo Manga”, de Claudio Assis, que está na grade da Globoplay. E há mais um cult nacional. Um cult que dividiu águas na forma de a América Latina representar a vida íntima cotidiana nas telas. O tal cult, que vai ser exibido nesta terça, às 19h30, é “Edfício Master”. Há duas décadas, o longa deu a Eduardo Coutinho (1933-2014) o troféu Kikito de melhor .doc em Gramado. Cinco anos depois, o diretor voltaria lá para buscar uma honraria pelo conjunto de sua obra e exibir “Jogo de Cena” (2007).

Em 1999, Coutinho deu uma renovada em sua estética e em sua legião de fãs ao lançar “Santo Forte”, que marcou sua volta aos holofotes e hoje está na grade da Globoplay. Aliás, tem “Edifício Master” por lá também.

Chamar Eduardo Coutinho de “o papa do documentário brasileiro” virou lugar-comum na crítica cinematográfica brasileira. Tal clichê requer uma discussão. Cineasta algum recebe “os votos” de sumo pontífice de um filão se não tiver desenvolvido uma gramática bastante personalista em sua seara narrativa. A força “gramatical” de um longa-metragem da grife Eduardo Coutinho vem da engenharia do encontro que ele vem polindo, filme a filme, desde que voltou a se expressar em tela grande, com o amparo da tecnologia digital. Consagrado com “Cabra marcado para morrer” (1964/1984), Coutinho desenvolveu, a partir do fim dos anos 1990, uma arte audiovisual que tem na palavra o combustível para realizar uma decolagem rumo aos céus da invenção. A partir de frases arrancadas na espontaneidade de um processo que substitui a entrevista pela conversação, seus filmes permitem que o espectador construa uma relação de identificação com pessoas ligadas a universos que por vezes ele desconhece. Em um fluxo contínuo de busca por sentido, sem apelar para signos que possam fechar os ângulos potenciais de informação que uma imagem filmada é capaz de comunicar, ele faz do “deixa falar” seu processo de apreensão do outro. É no choque entre a lente do diretor e o verbo do outro que nasce sua linguagem. Nem sempre ela atinge toda a força que há em latência na proposta, como aconteceu com “Peões” (2004). Mas, via de regra, o humanismo é a argamassa que erige sua obra. E “Edifício Master” é a construção onde o cinema humanista de Coutinho parece estar mais sólido. Não que houvesse uma tese prévia, orientando sua imersão em um prédio de Copacabana. Havia era um contingente rico e diversificado de homens e mulheres com muito a dizer em um espaço geográfico – um prédio residencial – em que muitos se esbarram, mas pouquíssimo interagem.

O diretor Eduardo Coutinho

Coutinho conseguiu fazer da privacidade uma caixa preta de humanidades (assim mesmo, no plural que traduz diferenças sociais, religiosas, étnicas e sexuais) a ser aberta na relação pessoal. No supracitado “Santo Forte”, filme que devolveu o diretor ao panteão dos cineastas mais referenciais do país, ele cristalizou um método que renderia projetos posteriores e inspirou numerosos colegas. Mas nesse marco zero de sua cinematografia na Retomada, havia um tema conduzindo a pesquisa: religiosidade. Em “Edifício Máster”, não. Havia uma multiplicidade de abordagens possíveis à disposição do cineasta, que jamais se limitou ao rasteiro “Como é viver em Copacabana?” em sua conversa com os moradores do edifício escolhido.
Após um elaborado trabalho de pesquisa, Coutinho entrou, porta a porta, em 27 apartamentos buscando entender o que pudesse de cada uma das vidas ali residentes. Acabou com isso trançando um rosário de desilusões, expectativas, angústias, medos e alegrias que virou celebrizou um dispositivo cinematográfico único e, aparentemente simples: o deixar contar e o fazer ouvir. Essas duas locuções verbais têm inspirado gerações de realizadores no país a partir do lançamento do filme, em 2002, lá na Serra Gaúcha, no Palácio dos Festivais de Gramado.

Laureado com uma menção honrosa em Havana, “Edifício Master” tem como charme maior algo que está na periferia de sua realização: o gato que passeia pelos corredores. Ele é uma comprovação do indomável da vida, aquela que circula pelos elevadores, pelos cantos, emn tudo o que sua câmera capta. Ali há cinema dos bons.

A história dos bastidores de “Edifício Master” pode ser acompanhada na íntegra no livro “As Sete Faces de Eduardo Coutinho”, de Carlos Alberto Mattos. É um livraço.

p.s.: Estrelado por Omar Sy, “O Príncipe Esquecido” (“Le Prince Oublié”, 2020), de Michel Hazanavicius, está na grade da HBO Max.

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