‘2 Perdidos Numa Noite Suja’ ainda monumental

‘2 Perdidos Numa Noite Suja’ ainda monumental

Rodrigo Fonseca

16 de agosto de 2021 | 10h14

Débora Falabella e Roberto Bomtempo no cult nacional de 2002

Rodrigo Fonseca
Tá rolando Festival de Gramado, em sua 49ª edição, online, com pérolas políticas como “O Homem-Onça”, abrilhantada por uma atuação em estado de graça de Chico Diaz, o que nos leva a uma reflexão sobre a relevância do evento gaúcho para a manutenção do garimpo de excelências de nosso audiovisual. De Gramado saíram filmes que doem na alma – e evoluem o olhar – como “2 Perdidos Numa Noite Suja”, que será debatido nesta segunda, às 20h, no Cineclube Casas Casadas, promovido pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC). Vão estar na conversa seu realizador, José Joffily, suas duas estrelas – Débora Falabella e Roberto Bomtempo – e o fotógrafo responsável por sua luz de chiaroscuros: Nonato Estrela.
O caminho das pedras: https://abcinecursos.org.br/cineclube-inscricoes/

O texto a seguir foi feito pelo P de Pop para a exibição do longa na mostra dos 35 Anos do Estação Botafogo, no primeiro semestre:
Hemorrágico em sua incontinente exposição de exclusões, “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, a peça, com o numeral que lhe dá título escrito por extenso, estreou em 1966, numa montagem do Bar Ponto de Encontro, da Galeria Metrópole, em São Paulo, tendo seu próprio autor, Plínio Marcos de Barros (1935-1999), chamado de “repórter do submundo”, como ator, ao lado de Ademir Rocha. Despojamento é a primeira palavra que vem a cena quando um sujeito falido pela vida, fracassado na conjugação do verbo “tentar”, chamado Tonho, tromba com outro desvalido, só que afiado como gilete de navalha, de nome Tonho. O que parece uma simples buddy story, ou seja, a narrativa do desabrochar de uma amizade, vinda do inesperado, ganha, sob vetores políticos do Brasil pós Golpe de 64, uma aspereza nos diálogos, atingindo o contorno do grotesco quando menos se espera, até culminar em uma rinha, na disputa por um par de “pisantes” engraxados. Cineastas como Eduardo Coutinho (1933-2014) cobiçaram levar Plínio a palcos audiovisuais, mas foi Braz Chadiak quem o fez, em 1970, convocando Emiliano Queiroz pra ser Tonho e um ferocíssimo Nelson Xavier (1941-2017) como Paco, que se autoproclamava “maluco e perigoso”. Parecia, então, que todas as dívidas éticas do cinema nacional com aquele momento poético pontiagudo de Plínio estavam pagas. Mas, no início da década de 2000, um mês antes de a tragédia do 11 de Setembro completar um ano, José Joffily provou que não, dando às plateias seu filme mais seminal, coroado com a estatueta de melhor direção no Festival de Brasília. Trocou “Dois” por “2”, numa aritmética da erosão moral.
A partir de inquietações pessoais ligadas ao degredo de quem foi tentar a sorte nos EUA, o realizador de “A Maldição do Sampaku” (1991) transferiu para Nova York a poética oriunda da zona portuária de Santos, revivificada nas “quebradas do mundaréu”, como o próprio Plínio chamava os espaços de invisibilidade social sobre os quais escrevia. Mostrando a Grande Maçã como a Terra Prometida dos que buscam um endinheiramento longe do berço, Jofilly construiu um “Perdidos na Noite” (“Midnight Cowboy”, 1969) brasileiro, tendo seu parceiro habitual, Roberto Bomtempo, como um Jon Voight carente. Fez de uma jovial Débora Falabella (saída do fenômeno televisivo “O Clone”) algo tão furioso como o Ratso de Dustin Hoffman. Ela é Paco; ele é Tonho. Ela odeia, urra e pipa crack. Ele sonha… buscando um abraço capaz de lhe servir de abrigo. A atuação devastadora de ambos ajudou a sedimentar as bases de uma cartografia de abandonos, fotografado ora com distanciamento documental, ora com chiaroscuros melodramáticos por Nonato Estrela, sob os acordes doídos da música de David Tygel.

p.s.: A delegada Raquel Gallinati, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, e a advogada Valéria Cheque, que se destaca no combate ao cibercrime, violência virtual e fake News, participam da roda de conversa do espetáculo “Cascavel”, com as atrizes Carol Cezar e Fernanda Heras, nesta quinta-feira (19/08), às 20h30, no perfil da peça no Instagram (@cascavelapeca). Raquel Gallinati foi a primeira delegada do Estado de São Paulo nomeada diretora da ADEPOL do Brasil. É coautora das obras jurídicas “Combate à Violência Contra a Mulher – medidas protetivas – Lei Maria da Penha”; “Lei Maria da Penha – Comentários artigo por artigo e estudos doutrinários”, entre outras. Valéria Cheque é especialista em Direito digital e compliance, e tem sólida atuação com temas relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

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