1ª direção de Lázaro Ramos premiada nos EUA

1ª direção de Lázaro Ramos premiada nos EUA

Rodrigo Fonseca

30 de outubro de 2020 | 03h41

Em still de Mariana Vianna, “Medida Provisória” ganha prêmio de roteiro no Indie Memphis Festival

Rodrigo Fonseca
Vitória para Lázaro Ramos no planisfério cinéfilo: “Medida Provisória”, seu primeiro trabalho como realizador, fechou a semana conquistando o prêmio de melhor roteiro no Indie Memphis Festival, nos EUA, depois de uma aclamada sessão no evento estadunidense. Lusa Silvestre, Elisio Lopes Jr. e Aldri Anunciação roteirizaram o projeto, apresentado antes no Festival de Moscou, na Rússia, também sob forte aclamação. Batizada lá fora de “Executive Order”, essa distopia em tons alarmistas do astro de “O Homem Que Copiava” (2003) tem como inspiração livre a peça “Namíbia, não”, do próprio Aldri. Lázaro dirigiu esse texto teatral nos palcos, em 2011, no Rio. Ele ainda apareceu no evento moscovita como ator em “O Silêncio da Chuva”, este dirigido por Daniel Filho (atualmente alvo de homenagens nos EUA e online no Circuito Inffinito de Cinema), com base na literatura policial de Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020) e seu herói, o delegado Espinoza. Aliás, foi Daniel quem produziu “Medida…”, acompanhando de perto a leitura do roteiro. Estima-se que a Première Brasil do Festival do Rio vá projetar o longa, em competição, mas nada foi confirmado ainda, embora a torcida carioca por isso seja das mais vigorosas.
Herança da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (a URSS), criado em 1935 e reinventado em 2000, sem qualquer sombra das ideologias políticas da Revolução Russa, o Festival de Moscou, ainda considerado um dos mais prestigiados do mundo, abriu as portas da cinefilia internacional para o filme de estreia do baiano Luiz Lázaro Sacramento Ramos com êxito. No voto popular, a trama centrada na luta contra a intolerância racial, ficou entre os 15 mais badalados títulos do evento eslavo, que mobilizou cerca de 200 produções. Em maio de 2019, o P de Pop foi ao set de filmagem, na Praça da Harmonia, no bairro da Gamboa, no RJ, tendo ainda acompanhado duas leituras de roteiro com Lazinho. Lá no set, há um ano e meio, Taís Araújo, Seu Jorge e o anglo-brasileiro Alfred Enoch, o Dean Thomas da franquia “Harry Potter”, estrelaram a sequência que acompanhamos, numa descida de ladeira. Taís vive a médica Capitu, que testemunha um rebuliço no país, causado por uma decisão do governo que pode expatriar os negros residentes no Brasil. Enoch é o namorado dela, Antonio, um advogado aguerrido em suas causas, que tem um primo jornalista – papel de Seu Jorge. O elenco ainda traz duas titãs da TV: Adriana Esteves e Renata Sorrah. “A coisa mais bacana de dirigir é saber tomar decisões de modo a ajudar o coletivo. A gente pensa no todo e não no que é melhor só pra gente. Tomei aula de técnica cinematográfica antes de embarcar nessa e me arriscar como cineasta, estudando lente, eixo, enquadramento… Só que o fator essencial num set é saber transmitir os afetos que eu tenho a partir dos personagens que estou ajudando meu elenco a criar”, disse Lázaro ao Estadão na filmagem, sempre ao lado do fotógrafo Adrian Teijido (de “Elis” e “O palhaço”). “Eu preciso contar algo que vem de dentro, que corresponde aos meus sentimentos de mundo”.
Na tropa de choque do que define como uma história de amor em um Brasil distópico, Lázaro conta ainda com (a já citada) Mariana Xavier, Pablo Sanábio, Dan Ferreira, Flavio Bauraqui, Pedro Nercessian, Hilton Cobra e “muitas outras atrizes e atores bacanas, capazes de trabalhar de forma harmônica”. Com dois astros talhados pelo cinema de língua inglesa nas mãos, como Seu Jorge e Enoch (o Wes Gibbins de “How to get away with murder?”), Lázaro mergulhou em modos de atuar bem distintos. “É uma esgrima de talentos”, disse o astro de “Madame Satã” (2002), que construiu uma das sólidas carreiras entre os talentos revelados pela Retomada do cinema nacional, na década passada. A coração agora nos EUA abre um caminho de respeito para o longa em terras norte-americanas, onde a produção havia sido escalada para o SXSW também.

p.s.: Com o lockdown anunciado em terras francesas, Cannes anseia, que encerrou na quinta sua edição pocket de 2020, com a Palma de Ouro para o Egito e seu “I Am Afraid to Forget Your Face”, de Sameh Alaa, clama agora por uma mostra online da Unifrance, a instituição que coordena a produção audiovisual em sua pátria. Clama-se por uma nova edição do #FiqueEmCasa deste órgão regulador, que, no início da pandemia, promoveu a exibição online de curtas e longas.

p.s. 2: Às 3h50 desta madrugada, a Globo vai exibi “Através da Sombra”, com Virginia Cavendish às voltas com o sobrenatural, tendo Walter Lima Jr. na direção.

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