1968 x sexismo com a ironia de Juliette Binoche

1968 x sexismo com a ironia de Juliette Binoche

Rodrigo Fonseca

25 de maio de 2020 | 11h51

Juliette Binoche é Paulette Van der Beck, diretora de uma escola para “prendar” mulheres numa França em conflito (necessário) contra as injustiças de gênero em “La Bonne Épouse”

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Fala-se muito do fenômeno que “Bad Boys Para Sempre” virou, de janeiro a fevereiro, num mundo anterior à pandemia, consagrando-se como a maior bilheteria deste ano, mas pouco se sabe sobre sucessos de outras cinematografias, de língua não inglesa, que ganharam os holofotes, por exemplo, da Europa cinéfila, como aconteceu com “La Bonne Épouse”, de Martin Provost. No calor dos debates antissexismo, esta comédia revisionista, calcada na arte da sororidade, ganhou às telas da França no dia 11 de março, com a promessa de faturar alguns milhares de euros, quiçá um milhão. Basta ver que, só em seus três primeiros dias em cartaz, o filme foi visto por 171 mil pagantes. A presença de Juliette Binoche candidata este novo longa-metragem do diretor de “Violette” (2013) e de “O Reencontro” (2017) ao sucesso: ele estreou em primeiro lugar no box office francês e deve chegar ao Brasil – assim que tivermos salas abertas – com fome de circuitinho e de algumas salas de shoppings. Juliette esbanja humor no papel de Paulette Van Der Beck, dona de uma escola dedicada a ensinar “boas maneiras” a mulheres às vésperas do casamento, formando “esposas prendadas”. Mas a morte do marido (e sócio) de Paulette revela algumas verdades: a) uma falência anunciada; b) um histórico de falsidades; c) o torvelinho da História, que, em 1968, trouxe uma revolução comportamental para alcovas e outros cômodos do lar. Ela vai descobrir que suas aulas do passado eram um convite à submissão. Sua jornada, no longa, terá a liberação feminina como norte.
“Não há como revisitar 1968 sem falar da renovação das relações humanas a partir do que as feministas defenderam e conquistaram. O papel delas foi… e é… fundamental para que as cobertas da hipocrisia machista pudessem ser levantadas, desnunando abusos e silêncios. Hoje temos um novo coro de vozes se formando que precisa ser ouvido”, disse Provost ao P de Pop durante o Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, fórum audiovisual realizado em janeiro em Paris. “Com as personagens fortes que eu tinha, e a força do feminino à minha volta, meu trabalho era não incorrer em ostentações narrativas que tirassem o foco das discussões levantadas ali, naquele contexto histórico”.

Uma pergunta norteia a narrativa criada pelo diretor (e também ator) em “La Bonne Épouse”: e se o ideal de “mulher perfeita” for o conceito de “mulher livre”? A partir dela, o cineasta e suas atrizes vão demolindo o machismo. “Bastou encontrar a casa onde se situa a escola de Paulette e todo o desenho formal do filme estava definido: a locação desenhou a direção de arte”, diz Provost. “Aquela casa onde filmamos me deu a paleta de cores de que precisávamos”.

p.s.: Tem Javier Bardem esta noite na TV aberta, dublado por Marco Antônio Abreu, na “Tela Quente”, em “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar”, com Johnny Depp enfarpelado sob as roupas de Jack Sparrow.

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