16º Fest Aruanda revisita ‘O País de São Saruê’

16º Fest Aruanda revisita ‘O País de São Saruê’

Rodrigo Fonseca

13 de dezembro de 2021 | 18h41

RODRIGO FONSECA
Após uma noite dedicada à semiótica de Julio Bressane e seu “Capitu e o Capítulo”, destaque latino do último Festival de Roterdã, o 16º Fest Aruanda, em João Pessoa, vai celebrar nesta terça-feira o jubileu de lutas de um documentário que sofreu toda a violência da ditadura militar: “O País de São Saruê”. Organizador da maratona cinéfila paraibana, o professor e crítico Lucio Vilar vai receber a professora Marília Franco (ECA-USP) e o especialista em restauração cinematográfica José Maria Lopes para uma conversa com o cineasta paraibano Vladimir Carvalho, o realizador do mítico longa de 1971. Na época de sua finalização, ele foi definido pela Censura com o rótulo: “Este filme fere a dignidade nacional”.
Já na sinopse de trabalho desse marco das narrativas de não ficção – usada desde que o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, o CPCB, representado sobretudo por Myrna e Carlos Augusto Brandão, preservou o filme, em 2004 – é possível entender o lirismo de seu realizador. Inspirado no título de um cordel do conhecido autor paraibano Manoel Camilo dos Santos, “O País de São Saruê” é um filme inspirado nas relações do homem com a natureza no sertão nordestino, onde predomina a luta contra a seca, o latifúndio e a miséria desde os tempos da colônia, numa tentativa de se resgatar a memória de fatos antigos, os usos e costumes que distinguem essa região das demais”.

Exibido em Roterdã, na Holanda, “Capitu e o Capítulo” concorre no Aruanda, em João Pessoa

O que dizer do novo Bressane… Editado por Rodrigo Lima e vitaminado por um elenco de peso (Mariana Ximenes, Enrique Diaz, Djin Sganzerla, Vladimir Brichta e Saulo Rodrigues), “Capitu e o Capítulo” é a imersão de Bressane no universo em prosa de Machado de Assis, a partir de “Dom Casmurro”. Mas o diretor de “Filme de Amor” (2003) não adapta o romance (sobre um advogado ciumento em suspeita de que sua esposa, Capitu, o traiu com seu melhor amigo) em si. Ele se propõe mais (e melhor) a adaptar a escrita machadiana em seu ritmo, sua respiração doentia. Neste sábado, “Capitu e o Capítulo” será exibido no Festival do Rio, em sessão às 20h no Cinépolis Lagoon.
Nesta terça, “Madalena”, de Madiano Marcheti, um dos longas nacionais mais badalados do ano no exterior, vai encerrar a seleção competitiva do Aruanda. Com toques de suspense e muita contemplação, esta silenciosa narrativa explora as sequelas existenciais (e morais) do assassinato de uma mulher três, vista sob a ótica de personagens distintos. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a longa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.

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