‘1001 Razões para Gostar do Rio’: com texto saboroso, livro aponta as delícias de ser carioca em tempos de crise na Cidade Maravilhosa

‘1001 Razões para Gostar do Rio’: com texto saboroso, livro aponta as delícias de ser carioca em tempos de crise na Cidade Maravilhosa

Rodrigo Fonseca

22 de junho de 2016 | 08h52

1001 Razões para Gostar do Rio

Esburacada de obras, estufada por engarrafamentos e ameaçada do inverno mais rigoroso de sua história, antecipado pela multidão de casacos grossos, cachecóis e gorros nas ruas da Zona Sul e do Centro, a Cidade Maravilhosa vive dias de sombra nestas vésperas de Jogos Olímpicos. Mas, carente de esperança, ganha um sopro de autoestima necessário para sua sobrevivência nas páginas de 1001 Razões Para Gostar do Rio de Janeiro. Num espírito de almanaque, resgatando curiosidades, apontando preciosidades e mapeando belezas e iguarias, o livro de Marcelo Camacho – dono de um dos textos mais saborosos de toda a imprensa brasileira – se impõe como algo mais do que uma leitura saborosa: é quase um manifesto antropológico sobre a carioquice. Com noite de autógrafos marcada para esta quarta-feira, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, o opúsculo passeia pelas delícias cariocas, buscando boas dicas de famosos locais (Ney Latorraca, Evandro Mesquita, Deborah Secco) acerca dos pontos indispensáveis da cidade onde nasceu.

Egresso de Campo Grande, Camacho foi editor do Caderno B do Jornal do Brasil de 2001 a 2002, onde formou uma legião de repórteres e críticos com lições sobre o valor de cada palavra e sobre a observação espacial. Costumava ensinar coisas do tipo: “Quando estiver em um evento como um festival de cinema, por exemplo, não se preocupe apenas com os filmes. Descreva bem o ambiente à sua volta, atento para as confusões na plateia, para a atriz que entrou com a meia desfiada, para o ator que chegou de pileque. Tudo isso é molho para tornar a reportagem mais saborosa”, dizia. Seu 1001 Razões Para Gostar do Rio de Janeiro carrega as especiarias de um jornalismo (hoje cada vez mais raro) de análise e de reflexão. Por isso, soam mais poéticos em suas páginas certos verbos. Para citar alguns: tomar uma batida no Bar do Oswaldo, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, ou comer batata frita com linguiça calabresa e alho no Manoel & Juaquim, rede de bares.

O domínio textual de Camacho deveria ser uma dessas 1001 razões. Para se apontar uma a mais, agora relacionada ao cinema, poder-se-ia citar algum dos grandes filmes rodados no RJ acerca das contradições daquela grande cidade. E, neste caso, Rio Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos, que completa 60 anos em 2017, fica como opção a ser revisitada, a ser repensada, a nos comover.

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