10 anos do monumental ‘A Distração do Ivan’

10 anos do monumental ‘A Distração do Ivan’

Rodrigo Fonseca

15 de maio de 2020 | 14h05

Neste domingo, as redes sociais exibem “A Distração de Ivan”, atração de Cannes que revisita o subúrbio carioca

Rodrigo Fonseca
Era uma vez 2010… data de “5xFavela, Agora Por Nós Mesmos” e “A Alegria” em Cannes, que ainda visitou a periferia do RJ pelas vias do lirismo, na forma de “A Distração de Ivan”. No ano em que o balneário francês revelou para o mundo a joia metafísica “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas” e a pérola semiológica “Cópia Fiel”, aquela produção brasileira de pouco mais de 16 minutos provocou um alumbramento na Croisette ao apresentar toda a complexidade do subúrbio carioca aos europeus, sob a direção de Gustavo Melo e Carlos Vinícius Borges, o Cavi. A sessão do filme, na Semana da Crítica, completa dez anos neste domingo, sintonizada com a produção de um longa-metragem, camado “Casa com Piscina”, derivado do curta sobre o guri Ivan, vivido por Rodrigo da Costa, uma cria do Nós do Morro. Neste domingo, “A Distração…” será disponibilizado nas redes sociais da produtora Cavídeo.
“O longa ‘Casa com Piscina’ será uma continuação do curta e acompanhará o crescimento e amadurecimento do menino Ivan, que é um alter ego do Gustavo Melo, em Brás de Pina, nos anos 1990. É o nosso Antoine Doinel”, diz Cavi. “No curta, nós ganhamos o edital da Petrobras Cultural e, pela primeira vez, tivemos um orçamento razoável para realizar um filme. Porém, como sempre trabalhamos com muitas restrições, esse orçamento provocou um inchamento da equipe, de estrutura e de tempo. Nossa equipe tinha quase 70 pessoas. Era muito grande em relação aos sete ou oito profissionais com que estávamos acostumados. Isso acabou sendo um grande desafio. Engraçado que a dificuldade aumentou quando conseguimos mais dinheiro e estrutura. Era um novo jeito de trabalho que não estávamos acostumados. Mas no fim deu tudo certo. Foi uma boa experiência e aprendizado”.

Na trama, de “A Distração…”, Ivan é um menino de 11 anos. Ele mora com a avó em Brás de Pina, Subúrbio do Rio. Em meio ao seu cotidiano de brincadeiras e brigas com seus amigos, ele irá amadurecer. No elenco, ao lado do menino Rodrigo, aparecem Myriam Pérsia, Jonathan Azevedo, Marcello Melo Jr. e Luciano Vidigal.
“Existe uma coisa universal em ‘A Distração de Ivan’. Se ele fosse um filme passado no subúrbio da Tailândia ou se fosse um filme asiático, teria o mesmo clima, o mesmo universo”, diz Gustavo Melo. “Sou de Brás de Pina. Minha avó morava na casa de baixo e eu morava na de cima, em uma rua que tinha todas as gerações e todos os tipos. E isso era muito rico. Ali, a pelada de domingo era muito disputada. A imagem que fica na memória, que julgo ser uma imagem suburbana, era a lembrança da minha avó, uma grande criadora de plantas, às voltas com as bolas vindas das peladas entravam no quintal dela. Uma outra grande característica do subúrbio são as casas com quintais. Essas bolas entravam no quintal da minha avó e quebravam as plantas dela. Acho que a imagem mais forte do ‘Ivan’, e desse subúrbio, é essa senhora que esquenta uma faca. Muita gente, à época, falava dessa faca quente que rasgava as bolas das peladas pelo subúrbio do Brasil. Estamos falando desse subúrbio que está em extinção. Existem muitas tradições no nosso subúrbio. O São Cosme e Damião e o fato de ficar na rua conversando, por exemplo”.
Há uma década, a Croisette aclamou a fotografia de Paulo Castiglioni em “A Distração de Ivan”. “Cannes te apresenta e te arremessa no mercado mundial de cinema. Depois de exibir seu filme lá, ele ganha o mundo e passa a ser exibido nos países ao redor do mundo. Como realizador, você passa a ser visto pelos curadores e críticos de uma outra forma”, diz Cavi. “A Cavideo que muitas vezes foi criticada por fazer filmes com baixos custos, passa a ser vista de uma outra forma. A chancela de Cannes nos ajudou a mostrar que, mesmo com custos baixos, nossos filmes tinham qualidade técnica e cinematográfica. Isso tudo se acentua mais ainda aqui no Brasil, que valoriza mais os filmes selecionados nesses festivais estrangeiros”.

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