Tem queer no pódio do rap brasileiro
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Tem queer no pódio do rap brasileiro

Murilo Busolin Rodrigues

20 de março de 2021 | 19h00

‘O mais alto grau de sinceridade.’ Essa é a definição utilizada por Jefferson Ricardo da Silva, o Rico Dalasam, para explicar o conteúdo do segundo disco de sua carreira, Dolores Dala Guardião do Alívio, lançado dia 12 de março em todas as plataformas digitais.

Bicha faz rap e faz rap dos bons. Rico Dalasam está entre o melhores rappers brasileiros de sua geração. FOTO: Divulgação / Youtube

Dolores escancara como o artista se reinventou com maestria, após se envolver em uma desgastante batalha judicial pelos direitos da canção carnavalesca Todo Dia (2017).

A música é da autoria de Rico e foi interpretada por Pabllo Vittar, sendo um dos hits que fez com  que a drag ganhasse mais holofotes em terras tupiniquins. Antes que a paz fosse selada em um acordo em março de 2020, Rico foi condenado pelo tribunal mais fervoroso e doloroso: a internet.

O álbum chega como uma expansão do EP homônimo, de 2020, que contou com o single Braille, vencedor do Prêmio de Canção do Ano do Superjúri do Prêmio Multishow de Música Brasileira.

Ali,  Rico não só recebia uma estatueta, mas também consagrava seu crescimento musical (e pessoal). O filme de divulgação  deixa ainda mais claro que o paulistano sofreu para chegar ao seu atual estado de espírito. Não é fácil diluir o cancelamento.

 

 

A simbologia que Rico carrega no vídeo ao representar um vendedor de alho é equivalente ao afastamento de todos os “vampirismos” que cercaram sua vida profissional nos últimos anos. Além disso, ele encara incontáveis caixas de ovos (alimento simbólico entre os praticantes de religiões africanas).

É feita a quebra do vínculo com o seu passado para  o renascimento de um artista ainda mais potente. “Não falaria de alívio se não tivesse doído tanto”, canta Dalasam na primeira faixa do álbum.

 

Rico expulsa os vampiros de seu carreira em seu novo álbum ‘DDGDA’. FOTO: Divulgação/Youtube

O álbum é uma  espécie de fábula sobre afetividade. As músicas se alinham com uma narrativa densa, que foi construída e moldada pelo rapper e seus colaboradores (dentre eles, Dinho Souza e Chibatinha), ao longo de  dois anos.

São histórias de relacionamento de um  negro gay  apaixonado, por momentos preso entre uma frustração e outra, violentado pelo fim de uma paixão, mas que reencontra sua integridade quando se vê novamente nos braços de sua mãe.

‘Dolores Dala Guardião do Alívio’ está disponível em todas as plataformas digitais desde o dia 12 de março e deve ganhar um formato físico em breve. FOTO: Divulgação / @ricodalasam – Instagram

Desde que estreou no mercado com Ortunga (2016), Dalasam foi rapidamente alçado entre os principais nomes queers do rap brasileiro.

Não é novidade  que o  gênero tem  o estigma de ser representado apenas por homens héteros. Rico não só não está sozinho na cena – que conta com nomes como Hiran, Quebrada Queer e a drag queen Gloria Groove – como também pode ser considerado um dos melhores rappers de sua geração,  no mesmo pódio em que está Emicida.

Bicha também faz rap – e dos bons.  Dolores é a maior prova disso.

Um artista, em sua melhor versão, entregando um álbum para a cura de nossos altos e baixos.  Esse disco não poderia vir em momento mais oportuno.

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